O charme impecável da grama de SW19 esconde, neste ano, uma queda de braço pesada nos bastidores. Wimbledon acabou de jogar na mesa o maior salto na premiação da história do torneio, anunciando uma bolada de £ 64,2 milhões. Estamos falando de um pulo de £ 10,7 milhões em relação ao ano passado, com um reajuste que abrange todas as rodadas. Para se ter uma ideia, o tenista que fizer as malas logo na primeira rodada vai embolsar £ 80 mil, enquanto os campeões de simples levarão £ 3,6 milhões para casa. Mas, curiosamente, esse aumento na casa dos 20% não parece ter feito nem cócegas nas exigências da elite do circuito. Os grandes nomes do tênis compraram uma briga com os Grand Slams, e a conta que eles fazem é bem diferente.
O xis da questão é a fatia bruta do bolo. Essa injeção de dinheiro, embora seja o maior aumento “em termos absolutos”, como fez questão de frisar a presidente do All England Club, Debbie Jevans, representa na prática apenas cerca de 15% das receitas geradas pelo campeonato. A panela de jogadores quer mais. Durante aquelas reuniões acaloradas que rolaram na época de Roland Garros, eles bateram o pé exigindo 16% de participação nas receitas já para esta edição — o que faria a premiação total encostar nos £ 71 milhões. A meta a longo prazo dos atletas é ainda mais ambiciosa: cravar 22% do faturamento.
Jevans não engoliu muito bem essa narrativa e se mostrou visivelmente frustrada na coletiva de imprensa com a fixação dos atletas pelos lucros do torneio. A justificativa do All England Club é calcada no fato de que a organização não tem fins lucrativos. O dinheiro que sobra, argumentam os diretores, vai para o fomento do tênis de base, para o apoio a outros torneios de quadra de grama e para a modernização da própria infraestrutura do complexo londrino. Usar a receita como régua para definir os prêmios simplesmente não faz sentido na visão de Jevans, que destacou que Wimbledon opera numa lógica totalmente diferente dos eventos Masters 1000, devolvendo todo o faturamento para dentro do esporte.
Como prova desse investimento e numa tentativa clara de acenar com a bandeira branca, o torneio entregou um andar novinho em folha no Millennium Building para acomodar melhor as equipes dos tenistas, que estão cada vez maiores. O clima, afinal, anda tão esticado que vimos recentemente um boicote midiático na França, com figurões limitando suas obrigações de imprensa a meros 15 minutos, o que deixou a tradicional coletiva pré-torneio de Wimbledon ao lado de Sally Bolton (diretora-executiva) carregada de tensão. O mais bizarro dessa história toda é que a organização de Wimbledon quase não tem conversado com os tenistas cara a cara. Todo o diálogo, as trocas de e-mails e as reuniões em Paris foram feitas por meio de Larry Scott, o ex-chefe da WTA que hoje atua como o testa de ferro dos atletas nessa cruzada corporativa.
Enquanto o sindicato trava sua guerra de planilhas e métricas contra os engravatados, a realidade dura do esporte cobra seu próprio preço, alterando a dinâmica do torneio antes mesmo dele começar. A expectativa de ver Victoria Mboko brilhar no piso sagrado de Wimbledon foi por água abaixo. A canadense está oficialmente fora após uma lesão de cortar o coração no torneio de Queen’s. Ela escorregou feio no segundo set do seu jogo de simples contra Karolina Pliskova e acabou forçando um espacate brutal. O áudio dela avisando aos fisioterapeutas em quadra que “não tinha estabilidade nenhuma” foi o prenúncio do pior. Uma atualização oficial apontou uma lesão persistente no joelho esquerdo, confirmando a retirada da cabeça de chave número 9 da lista de inscritos. Darja Vidmanova já foi puxada para herdar a vaga na chave principal.
O drama do joelho de Mboko não tirou a atleta apenas da chave de simples, mas implodiu de vez um dos enredos mais surreais da temporada: a parceria de duplas com Serena Williams. A multicampeã de 23 Grand Slams, num retorno completamente chocante após quase quatro anos longe do tênis — quando todos juravam de pés juntos que ela havia se aposentado em definitivo —, escolheu o torneio de Queen’s para voltar à ativa. A lenda e a Novata do Ano da WTA de 2025 formaram uma dupla improvável e chegaram a bater Nicole Melichar-Martinez e Erin Routliffe logo na estreia. O aguardado embate na rodada seguinte contra Leylah Fernandez e Laura Siegemund virou fumaça por conta do tombo de Mboko, deixando os fãs com um gosto amargo de “o que poderia ter sido”. Serena, demonstrando classe, foi às redes mandar um recado acolhedor para a parceira: “Você é um talento incrível e estará de volta em pouco tempo. Desejo uma recuperação rápida.”
A grande incógnita que domina as rodinhas de conversa agora não é apenas o tamanho dos cheques que serão distribuídos, mas se a própria Serena Williams será a protagonista surpresa no All England Club. Ela, que tem sete títulos de simples e seis de duplas conquistados por lá jogando ao lado da irmã Venus, não descartou a ideia, elogiando o espaço que os organizadores estão lhe dando para decidir com calma. O comitê de wildcards bate o martelo na semana que vem, mas Sally Bolton sabe muito bem o furacão comercial e midiático que tem nas mãos. Ao ser questionada se Serena receberia um convite automático caso pedisse, a chefe do torneio desconversou, mas sem esconder o jogo: “Não posso responder a essa pergunta, mas o que posso dizer é que todos nós podemos ver o quanto a volta da Serena gerou de empolgação na grama… então só dá para imaginar como seria isso no campeonato.”
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