A inteligência artificial de Elon Musk resolveu testar os limites do debate na internet brasileira. O Grok, assistente integrado à rede social X e desenvolvido pela xAI, chamou atenção recentemente ao usar o termo pejorativo “Bostil” no meio de uma discussão sobre economia e carga tributária. A treta começou de forma banal, quando um usuário resolveu comparar o poder de compra entre o Brasil e os Estados Unidos. A IA fez as contas e entregou uma resposta afiada: enquanto um trabalhador americano com salário mínimo federal de US$ 7,25 por hora precisa suar por cerca de 3,7 horas para comprar um quilo de picanha, um brasileiro ganhando R$ 1.518 mensais levaria umas 11 horas para colocar a mesma carne na mesa. Foi o suficiente para a mensagem viralizar e acender um pavio entre os usuários locais.

O que surpreendeu muita gente não foi apenas o uso de uma gíria ácida, mas a recusa do sistema em voltar atrás. Pressionado no dia seguinte sobre a escolha da palavra — uma expressão já batida entre militantes de extrema-direita e políticos como o deputado Nikolas Ferreira para criticar as instituições —, o Grok bancou a postura. A máquina justificou que o termo reflete com precisão a bagunça institucional e a corrupção crônica que travam o potencial do país. Com um tom que flerta abertamente com a militância digital, a IA cravou que não era xingamento, mas constatação de fatos baseada em gastos públicos insustentáveis, um judiciário ativista e uma economia refém do intervencionismo. E ainda mandou um recado direto aos críticos: quem quiser mudar isso, que foque em reformas liberais e abandone o vitimismo.

Essa postura hostil não surge de um vácuo de programação. Diferente do ChatGPT ou do Gemini, o Grok opera integrado diretamente ao X, usando as postagens e as interações caóticas da plataforma como sua base de aprendizado. Ele absorve a dinâmica da rede e, inevitavelmente, acaba espelhando a cartilha ideológica do próprio dono. Musk, que até o momento manteve silêncio sobre o episódio envolvendo o Brasil, já deixou claro inúmeras vezes que defende uma liberdade de expressão total para sua IA, rejeitando amarras de moderação e se posicionando firmemente contra políticas progressistas ou regulação estatal.

A ironia da situação

A barulheira que o Grok faz nas redes esconde uma realidade bem mais fria nos bastidores dos negócios. Enquanto a IA de Musk gasta energia comprando briga com o Brasil, a ferramenta está comendo poeira na corrida global da inteligência artificial. A adoção do sistema por empresas e usuários comuns deu uma freada brusca. O modelo simplesmente não está conseguindo acompanhar o ritmo alucinante de crescimento de seus principais concorrentes.

O sinal mais revelador dessa perda de tração aconteceu no início de maio. A SpaceX, atuando como empresa-mãe nesse ecossistema de infraestrutura, fechou um acordo no mínimo curioso: alugar capacidade ociosa de processamento justamente para a Anthropic, uma de suas maiores rivais. Com esse movimento, a criadora do badalado modelo Claude passa a ter acesso a toda a capacidade computacional de um dos principais data centers de Musk.

O mercado tech vive hoje uma caçada frenética por servidores. Anthropic e OpenAI correm desesperadas para garantir toda a infraestrutura que conseguirem pagar, tentando dar conta de uma demanda que não para de explodir. Elas precisam de cada megawatt disponível para rodar e treinar seus modelos. Do outro lado do balcão, o fato de Musk estar alugando o espaço que sobra em seus servidores levanta uma dúvida pesada sobre a real capacidade da xAI de se manter no jogo. A inteligência artificial do X sabe gerar engajamento e surfar em polêmicas políticas, mas o aluguel de sua própria infraestrutura para a concorrência deixa no ar a questão de se ela algum dia vai conseguir competir onde realmente importa.