Descriminalização da maconha é porta de entrada para outras drogas?

Especial da Semana

Vera Lúcia Lorenzeti Gelás, do Amor Exigente de Marília, e Mara Silvia, da Federação do Amor Exigente.
Vera Lúcia Lorenzeti Gelás, do Amor Exigente de Marília, e Mara Silvia, da Federação do Amor Exigente.

A pergunta é, na verdade, uma afirmação proferida pela presidente e uma das fundadoras do Amor Exigente de Marília, Vera Lúcia Lorenzetti Gelás, em entrevista exclusiva ao Marília Global, que está promovendo um debate sobre a descriminalização da maconha.

Segundo Vera Gelás, as drogas lícitas são o primeiro passo para que a pessoa perca o controle sobre si, ficando sujeita a exposição a outros tipos de drogas.

“Quando ingerimos álcool acabamos tomando atitudes que se estivéssemos sóbrios não faríamos. Ele tira todo nosso senso de autocrítica. Qualquer um de nós, após ingerir álcool, passa a se comportar de forma diferente. O mesmo pode acontecer se considerarem que o uso da maconha não configura crime. Uma vez sob o efeito deste entorpecente, a pessoa, principalmente os jovens, vai ficar exposto às drogas mais fortes e fatais, porque a autocrítica dela vai estar ‘zerada’, pois ela estará sem a autocrítica”, destacou.

Vera Gelás destacou que somente as pessoas que trabalham diretamente com a família que tem um usuário ou drogadito é que pode avaliar o que é o uso da droga. “Eu vejo que a liberação da droga vai piorar a nossa ação. Vai aumentar o número de usuários. Tudo que é permitido não é proibido. Hoje nós já temos muita dificuldade de fazer a prevenção da maconha, porque alguns pais se convencem que ela não faz mal. Se liberar, aí vai ficar mais difícil atingir esse convencimento dos pais”, explicou.

Se nessa perspectiva da descriminalização os pais terão mais dificuldade de fazer o controle e a prevenção, por outro lado, afirma Vera Gelás, “falando sobre a questão do tráfico de drogas, vemos que essa quantidade mínima estabelecida pela lei em discussão não vai resolver. Tem muita gente no tráfico e eles podem usar essa estratégia, com os pequenos ‘aviõezinhos’ (pessoas que fazem a entrega de pequenas quantidades de entorpecentes para os traficantes) que vão, já que é permitido, vão fazer o tráfico com mais facilidade, fazendo com que aumente esse crime”, disse.

Além disso, conforme a dirigente do Amor Exigente, o traficante não vende só maconha. “Pelo contrário, ele prefere vender outras drogas. Não vai ser uma droga liberada que vai acabar com o traficante. Nós somos totalmente contra a descriminalização”, afirmou.

Para a presidente do Amor Exigente, ao invés de discutir a descriminalização da maconha, o Poder Público deveria investir no trabalho de educação e conscientização sobre os malefícios desse entorpecente. “Seria preciso fazer um trabalho de prevenção sério, melhorar a qualidade de vida de nossos jovens para garantir que eles tenham uma melhor condição, com uma escola e saúde de qualidade. Sem qualidade de vida, eles têm uma estima muito baixa, ficando expostos aos traficantes”, destacou.

Evolução na discussão do problema

Vera Gelás trabalha há 24 anos com o Amor Exigente e faz uma análise extremamente negativa em relação a evolução do problema envolvendo o consumo de drogas. Segundo ela, a idade dos usuários vem se reduzindo cada vez mais. Além disso, o número de meninas envolvidas com a dependência das drogas também aumentou consideravelmente.

“As meninas estão usando tanto quanto os meninos, inclusive o álcool. A dependência está presente em todas as classes sociais. As mais altas não aparecem tanto porque elas não se expõem, não procuram ajuda em lugares de grande visibilidade. Mas sabemos que o problema está presente em todas as classes. Não é porque eu moro em um condomínio fechado que meu filho está isento disso. Pelo contrário. No condomínio ele se sente mais protegido para fazer o uso”, ressaltou.

Por outro lado, Vera Gelás consegue perceber um avanço em relação ao comportamento dos pais e o engajamento de outros profissionais no trabalho desenvolvido pelo Amor Exigente. “Nós percebemos que os pais estão mais abertos para conversar conosco. Não tem vergonha de procurar ajuda. Psicólogos e psiquiatras têm se aproximado mais da nossa filosofia. Que é mais disciplinada, mais exigente. Essa parte melhorou bastante. Há pouco tempo não tínhamos o apoio dos psicólogos. Antigamente eles nos achavam exigentes demais. Porém, hoje, eles mesmos nos encaminham pais que estão enfrentando essa situação com os filhos”, ressaltou.

Um conselho

A presidente do Amor Exigente de Marília deixa uma orientação para as pessoas que enfrentam o problema da dependência das drogas na família, ou não. “Elas precisam se informar e falar sobre o problema. Elas precisam perder o medo de falar sobre o assunto. Antigamente não se falava o nome do ‘câncer’. Quando se referiam a ele, diziam ‘aquela doença’. Hoje vê-se o mesmo comportamento em relação as drogas. ‘Ele usa’ ou ‘ele fuma’, sem falar abertamente o que ele usa ou fuma”, explicou.

Vera Gelás diz que as pessoas precisam “perder o medo” de falar sobre o assunto. “É preciso falar de uma forma mais aberta. Nenhuma família está isenta ou imune de um problema desses e a gente precisa se abrir, dialogar e exigir dos governantes uma prevenção e tratamento gratuito para os jovens, principalmente os menores”, finaliza.

Onde encontrar ajuda

As reuniões do Amor Exigente são realizadas sempre às segundas-feiras, às 20h, na sede da entidade, que fica na rua Maria Angelina Zillo Vanin, 75, no Jardim Estoril (zona Leste), próximo ao Bosque Municipal. “As pessoas podem nos visitar, sem agendamento prévio. Inicialmente elas participam de uma reunião conjunta e depois nós conversamos individualmente”, finalizou. Mais informações podem ser adquiridas pelos telefones (14) 3433-1007 e 3433-0742 ou pelo email amorexigente.marilia@hotmail.com

Sobre Carlos Teixeira 106 Artigos

Ele é jornalista com conhecimento em diferentes mídias (rádio, jornal, televisão e internet) e responsável pela empresa “O Porta Voz – Assessoria de Comunicação”.

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