O machismo disfarçado de jornalismo

Texto de Talita Barbosa para as Blogueiras Feministas. Ela é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo.

Banca de jornal na cidade do Rio de Janeiro. Foto de Julio Cesar Guimarães/UOL.
Banca de jornal na cidade do Rio de Janeiro. Foto de Julio Cesar Guimarães/UOL.

O jornalismo brasileiro é machista e não faz nenhuma questão de não o ser. Pois, o poder das empresas de comunicação, majoritariamente, está nas mãos de homens empresários. Para isso, basta observarmos os donos das emissoras de TVs, jornais e rádios de grande alcance no Brasil. São homens, brancos e ricos, que possuem todos os privilégios disponíveis numa sociedade machista, patriarcal e racista.

Comumente, na imprensa brasileira, as mulheres são retratadas como “musas” que possuem o “corpo ideal” e são julgadas como “desleixadas” quando seus corpos não atendem as expectativas do padrão ideal de beleza, que nos é imposto. Às atrizes e cantoras, além de suas carreiras, questionam suas roupas, estilistas e marcas de sapatos favoritos. Perguntas sobre namorados, casamentos e maternidade são obrigatórias numa coletiva de imprensa que nada tem a ver com a vida profissional da artista. Atletas são analisadas não pelo desempenho físico no esporte, mas pelos “corpos esculturais” que levam os “homens ao delírio”, como se fossem pedaços de carne em exposição num açougue.

Notícias sobre assédios e estupros são minimizadas com o uso de eufemismos. Desta forma, encontramos manchetes com a expressão “forçar sexo” ao invés de estupro. Quando publicam matérias sobre assédio que, nós, mulheres, sofremos ao andarmos pelas ruas, o minimizam como “cantada”, no máximo, chegam a denominar como uma “cantada agressiva”.

Nos últimos dias, uma das notícias mais veiculadas foi sobre a “musa” brasileira dos saltos ornamentais, que se chama Ingrid Oliveira e tem 19 anos, mas que após publicar uma foto em seu perfil no Instagram, em que aparece de costas e sentada à beira da piscina, vestida num maiô, recebeu diversos comentários machistas e misóginos. No entanto, a mídia machista se preocupou apenas em divulgá-la como musa e, em seguida, a sua derrota nos Jogos Pan-Americanos.

No dia 15 de junho, a seleção feminina de futebol ganhou de 7×1 da seleção do Equador nos Jogos Pan-Americanos. Mas a mídia, como sempre, não deu destaque. A mídia machista se interessa mais pela derrota da seleção masculina na última Copa do Mundo, que perdeu de 7×1 para a seleção da Alemanha, do que com a vitória de um time de futebol composto por mulheres, que são tão boas jogadoras quantos os homens que estão na seleção masculina. Logo, é possível chegar à conclusão de que o machismo e a mídia andam de mãos dadas no Brasil e se retroalimentam.

Como numa sociedade machista, os produtos que são colocados para que as mulheres consumam estão ligados a estereótipos de gênero, como por exemplo, produtos de beleza ou de limpeza, como se todas as mulheres necessariamente se interessassem por esses produtos. Desta forma, são construídos padrões de gênero machistas em que a mulher se torna um produto, seja para consumir um artigo que nos torne desejável ou para virarmos um produto de consumo, que posto à venda, gera lucros para as empresas que já são dominadas por homens.

No entanto, todo este machismo disfarçado de informação, infelizmente, é reflexo da baixa quantidade de mulheres em cargos de chefia dentro do jornalismo. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, as mulheres compõem 64% do quadro de profissionais da área em atividade no país. No entanto, são minoria em cargos de chefia nos veículos e órgãos de comunicação, além de receberem salários menores que os dos homens.

Trata-se de um jornalismo que julga a mulher que decidiu abortar, mas que não questiona a forma compulsória com que o homem abandona seus filhos/filhas. E, com isso, a mídia dissemina ideais machistas e contribui com a sua perpetuação. Logo, o jornalismo que temos implantado no Brasil não passa de um reflexo das redações machistas que existem no país. Por isso, para romper com o machismo na mídia brasileira, nos cabe lutar por uma imprensa que não objetifique nossos corpos, que nos dê nome e sobrenome — da mesma forma que fazem com os homens — e que não use eufemismos para falar sobre feminicídio, estupro e aborto. Para que haja a mudança, necessitamos de um jornalismo feminista.

 

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