19 de July de 2019

A visão da notícia e o espetáculo da tragédia

Acidente em rodovia perto de Marília. Foto: JCnet.
Acidente em rodovia perto de Marília. Foto: JCnet.

Desde os tempos em que Jesus Cristo e seus discípulos pisaram na Terra, a morte era um espetáculo à parte, como observamos no exemplo da crucificação, evento tradicional da época. Na idade média, eram comuns os espetáculos em torno da violência. Talvez o maior exemplo seja o do Coliseu, símbolo do Império Romano. Lá eram realizados eventos em que cristãos travavam batalhas com leões, escravos lutavam até a morte e soldados capturados eram desafiados a sobreviver à uma série de animais selvagens e peçonhentos. Mais adiante, criminosos eram executados em praça pública, evento que atraía a atenção de multidões nas principais cidades da Europa, como Roma e Paris. Ainda no século passado, execuções de criminosos eram exibidas em alguns lugares dos EUA, com as penitenciárias do Texas, que ainda hoje executam criminosos.

Aparentemente, essa é uma realidade que ficou no passado, nos livros de história, que quando lemos nos chocamos com as barbáries que eram cometidas por nossos antepassados. Mas só aparentemente. Somos bombardeados cotidianamente com programas e jornais que apresentam um boletim diário dos acidentes, desastres e crimes. Esses programas tem uma fórmula para o sucesso: a espetacularização da tragédia. Além de representarem um retrocesso, esses programas prestam um desserviço à sociedade, contribuindo para a desinformação e fomentando ódio e uma sensação de insegurança coletiva.

No Brasil, três das quatro grandes emissoras e TV tem programas policias diários, pelo menos uma vez ao dia, e duas delas destinam parte do horário nobre para esses programas, além de possuírem programas policiais no período da manhã e no horário do almoço. A audiência desses programas é alta e o preço das propagandas de publicidade segue a audiência. Os programas são guiados por apresentadores enérgicos e que são decisivos para a propagação do discurso conservador. Os programas policiais no Brasil seguem um roteiro: se não há nenhum crime em evidência, os editores elegem um crime, considerado brutal em que o perfil do criminoso é jovem, negro e pobre, e a vítima pertencente à classe média. Permeando a manchete, outros crimes e acidentes de menor expressão dão o ar “jornalístico” aos programas. O apresentador, em tom repetitivo, desqualifica de várias formas o criminoso, inclusive com falas de caráter fundamentalista, afirmando “ausência de Deus” nos criminosos (1). Não se trata aqui de defender o criminoso ou o agressor, muito menos menosprezar a gravidade dos crimes ou ignorar as vítimas, sejam elas quem forem, mas sim problematizar a criminalidade urbana e questionar a metodologia dos programas policiais e jornais com chamadas sensacionalistas que disseminam o ódio, disfarçando-o de jornalismo.

Em uma cidade que segue tendências conservadoras e retrógradas como Marília, não poderiam faltar sujeitos que copiem tais fórmulas e façam espetáculo com a tragédia. Além dos conhecidos jornalecos da cidade, famosos pelo caráter tendencioso e pela pobreza jornalística, recentemente surgiram personagens novos. Um deles, um jornalista que reproduz o estilo já consagrado de programas sensacionalistas apresentados por José Luiz Datena e Marcelo Rezende. Em seu programa, exibido num dos canais locais da cidade, apresenta casos de acidentes e crimes, mostrando vídeos nos locais e se orgulhando de ser o primeiro a chegar, exibindo imagens da cena do crime e de corpos sendo carregados. Não há jornalismo nenhum nisso. Um segundo personagem, é um canal de “notícias” que propõe trazer a visão dos fatos importantes ocorridos na cidade, mas se limita a apresentar um diário de acidentes e crimes locais, sem a preocupação com a veracidade ou com os dados reais. Num caráter colaborativo, o site exibe imagens muito fortes das vítimas e dos acidentes, o que gera milhares de acessos e likes nas redes sociais. Sem se preocupar com os familiares das vítimas ou com a exibição de um conteúdo sanguinário, a equipe do “jornal” contribui com a espetacularização da tragédia.

Aos que assistiram ao filme “O Abutre” (The Nightcrawler – Estados Unidos, 2014, 117min. Dirigido por Dan Gilroy), irão identificar o pseudojornalismo feito nestes programas/jornais, com o que é exibido no filme, que tem nome sugestivo, afinal, o abutre se alimenta de carne morta, assim como os programas policiais ganham sua visibilidade. Não se trata aqui de negar a existência da tragédia e de episódios como os retratados por esses personagens, mas de refletir sobre sua natureza ao invés de se iludir com o espetáculo feito em torno disso.

(1) Depois de comentários insinuando que os crimes só podem ser cometidos por pessoas que “não têm Deus no coração”, o apresentador do programa Brasil Urgente, José Luiz Datena, foi condenado a pagar multa e a emissora condenada a exibir uma propaganda sobre liberdade religiosa em diversos horários. Após ofensa a ateus, Band terá de exibir campanha sobre liberdade religiosa. Carta Capital. Publicado originalmente em 25/05/2015. Disponível em http://www.cartacapital.com.br. Acessado em 01/10/2015.

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