Para profissional da saúde, descriminalização é tardia e falta combate ao tráfico de drogas

DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS

A diretora técnica do Hospital Espírita André Luiz, de Garça, psicóloga Eliana Mara de Castro Boaretto, destaca, em entrevista ao Marília Global, que a discussão sobre a descriminalização das drogas é tardia e, caso seja aprovada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), poderá ajudar muitos dependentes que estão dispostos a buscar tratamento.

Ela aponta ainda que o tratamento dos dependentes é prejudicado devido ao ambiente para o qual os jovens retornam. Confira a seguir, a entrevista com a psicóloga Eliana Boaretto, diretora do Hospital André Luiz, de Garça.

Eliana Boaretto, diretora do Hospital André Luiz, de Garça Foto: Reprodução/Internet
Eliana Boaretto, diretora do Hospital André Luiz, de Garça Foto: Reprodução/Internet

Marília Global – Qual é a sua posição em relação a essa medida discutida no STF?

Eliana Boaretto – Estamos atrasados nessa discussão. Esse é um tema a ser amplamente discutido mundialmente.

MG – A senhora acredita que a eventual descriminalização pode acarretar em aumento no número de usuários?

Eliana Boaretto – Não. O número de usuários, principalmente adolescentes, só tem aumentado, independente da descriminalização.

MG – Especialistas defendem que a descriminalização poderá ter um efeito positivo, com as pessoas procurando tratamento médico sem a preocupação de serem criminalizadas pelo porte da droga. A senhora acredita nisso?

Eliana Boaretto – Sim e essa procura pelo tratamento pode melhorar e muito as condições de vida dos usuários e familiares.Quando o indivíduo procura o tratamento, quando ele quer, tudo fica mais fácil, a reinserção é diferente. A descriminalização pode ser o primeiro passo para a recuperação de muitos.

MG – Pela sua experiência, a descriminalização sem combate efetivo ao tráfico, não vai ter o efeito esperado?

Eliana Boaretto – O combate efetivo ao tráfico não existe. A descriminalização é só mais uma discussão, mais uma lei, mais uma regra. Estamos dando passinhos de formiga, o tráfico e o uso de crianças e adolescentes vão continuar. O problema é bem maior do que a descriminalização. Discutir o tráfico e combatê-lo seria o primeiro passo.

MG – Qual é o perfil dos dependentes tratados pela instituição que a senhora dirige, me refiro ao gênero, faixa etária e tipo de droga mais comum?

Eliana Boaretto – Adolescentes feminino e masculino de 11 a 17 anos e adultos. As drogas mais comuns são maconha 100%, cocaína 99% e crack 60%. O Hospital André Luiz é referência para 62 municípios e cada vez mais jovens estão sendo internados aqui. Os adolescentes normalmente tem a internação judicial, poucos aderem ao tratamento e a maior dificuldade é a reinserção social.  Eles internam, realizam um tratamento e voltam para o mesmo lugar sem esperanças. Verbalizam situações onde são usados por traficantes. Os municípios não tem projetos adequados e alternativas para os adolescentes. A situação é desesperadora quando ouvimos os discurso dos adolescentes.

MG – Na opinião da senhora, a atual legislação, que já prevê tratamento médico, orientação e conscientização não é eficiente?

Eliana Boaretto – Acredito no tratamento quando o indivíduo aceita ou esteja convencido de que será bom para ele. Muitos são inseridos no tratamento e aderem aos benefícios que lhe são apresentados, porém, a dificuldade é a alta do paciente, o final do tratamento. Saúde, educação, assistência social e judiciários devem trabalhar juntos e isso não acontece. A reinserção é muito difícil.

Fachada do Hospital Espírita André Luiz, em Garça.
Fachada do Hospital Espírita André Luiz, em Garça.

MG – A senhora acredita que poderia haver uma alternativa ao que está sendo discutido pelo Supremo Tribunal Federal?

Eliana Boaretto – Não sei. Tenho dúvidas em relação a isso. Enquanto profissional da saúde, a minha preocupação atual é maior em relação ao adolescente. A vulnerabilidade em que se encontram.

MG – Para a senhora, a criminalização é uma “ferramenta” coercitiva usada pelos pais para “convencer” e “esclarecer” os filhos a não usar maconha ou outras drogas?

Eliana Boaretto – Nem sempre. Muitas pessoas – leigos – são a favor da liberação total da maconha, porém, há a escalada das drogas, onde o indivíduo usa drogas leves e progressivamente caminha para o uso de drogas cada vez mais pesadas. Não estou generalizando, conheço pessoas que usam maconha há muitos anos sem prejuízos. Porém, o que serve pra um não serve para o outro. Em sua maioria, os adolescentes iriam experimentar drogas mais pesadas e é assim que os pais enxergam essa situação.

Sobre Carlos Teixeira 106 Artigos

Ele é jornalista com conhecimento em diferentes mídias (rádio, jornal, televisão e internet) e responsável pela empresa “O Porta Voz – Assessoria de Comunicação”.

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