Platão e um país profundamente dividido, ou a vitória da barbárie

Estátua do filósofo grego Platão. Foto: Republic.

O país esta profundamente dividido. Muitos dizem que isto se iniciou em 2014, após a reeleição de Dilma Roussef, e um movimento da oposição, liderado pelo candidato derrotado do PSDB, Aécio Neves. Aécio não reconheceu a vitória da chapa liderada pelo PT e iniciou-se, aí, uma batalha jurídica e política para comprovar abuso de poder econômico durante as eleições, crime de irresponsabilidade fiscal (as famosas “pedaladas”) e falsas promessas de campanha. Hoje este clima se agrava com as revelações da Operação Laja jato, da Polícia Federal. 

Confesso que não acho que este é o marco do Brasil dividido, pelo menos não é “o” marco histórico. É um marco, porém. De qualquer modo, vamos com ele aqui, meu interesse é outro.

Estou interessado em discutir o significado de “profundamente”, na frase “O país esta profundamente dividido”. Tento pela via filosófica e política.

Em sua teoria da alma, que pode ser chamada de teoria pedagógica, Platão propôs a superação dos limites impostos, na alma, pelos apetites, intemperanças e irracionalidades, ao mesmo tempo em que explicita a educação do homem virtuoso.

Acima do seu envolvimento com a filosofia e a pedagogia, a teoria da alma de Platão tinha uma vinculação política. Àqueles que, pela inclinação natural e aptidão, dominassem a alma dos apetites por meio da temperança, seria dado um lugar no estrato social de um Estado Justo. Neste caso, se tornariam artesãos. O alcance da temperança serviria, assim, para distinguir o bom e o mau para o corpo.

Já àqueles que dominassem a alma irascível, por meio da prudência e da coragem, seria dado uma posição de guardião do Estado. Já àqueles que dominassem a alma irracional, por meio da companhia dos estudos filosóficos e da sabedoria, seria dado uma posição de governante no Estado.

Então, se entendermos a teoria da alma de Platão como uma ascensão, verticalizada, dos apetites até a sabedoria, entendemos que o termo “profundamente”, em “O país esta profundamente dividido”, significa que estamos lidando com os fatos atuais, expostos pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, a partir das profundezas dos apetites, isto é, muito apetite e pouca sabedoria. O estupor da violência física e simbólica por desavenças políticas domina o cenário, de certo modo.

Nos dias de hoje, isto indica duas coisas, pelo menos. Primeira, fiel depositário da esperança de um país mais decente e o fim da impunidade, o Partido dos Trabalhadores não cumpriu a promessa de ser o exemplo no Brasil democrático e elevar o grau de cidadania, ligada a educação do brasileiro, e que nos permite um pouco da dignidade da sabedoria em tempos como este. Elevou o grau de consumidores, o que é volátil, conforme as ondas econômicas. Não desprezo as conquistas históricas, sociais, principalmente, do governo Lula. Mas…

Segunda, caso a frente de oposição consiga o impeachment de Dilma Roussef, será a vez deles assumirem o compromisso com um Estado mais justo. Isto significa, pra mim, fazer as reformas necessárias: desburocratizar e simplificar a tributação de impostos; requalificar o foro privilegiado, que serve de abrigo contra a Justiça, para muitos; escalonar o modus operandi de uma Polícia Federal investigativa e um Ministério Público atuante para os municípios país afora, diminuindo o número de corruptos das Prefeituras; garantir a diversidade brasileira na esfera jurídica/política; em nome da governança democrática, diminuir o Estado e consequentemente a participação deste na economia, em todas as esferas, federal, estadual e municipal, diminuindo os custos públicos e a carga tributária; em contrapartida, oferecer educação, saúde e segurança universais, de qualidade e eficiente.

Claro, estas não são exatamente as reformas que porventura iriam ser propostas por um governo pós-impeachment. De qualquer modo, pelo que sinto nas ruas de concreto e nas avenidas digitais, se algo no sentido de uma reforma que modernize o Estado, que mostre o caminho ao Brasil para o século XXI não for posta em prática por um provável governo pós-impeachment, este mesmo século XXI tem o potencial de se tornar o século da barbárie para uma nova geração de brasileiros.

Sobre Beto Cavallari 181 Artigos

Sou editor do jornal online MG e escrevo sobre política, cultura, tecnologia e educação.

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