Dois dedos de prosa sobre a expressão “vontade popular”

O ministro do STF dorme "no ponto" durante sessão. Foto: Internet.
O ministro do STF dorme "no ponto" durante sessão. Foto: Internet.

Na perspectiva filosófica, vontade popular pressupõe uma “vontade” que emana do povo, no caso dos pleitos eleitorais, da maioria da população votante.

A qualidade do “cheque em branco” que o povo passa aos seus gestores e legisladores públicos por meio da sua vontade, da “vontade popular”, tem um caráter moral, no sentido de uma projeção moral. Explico. Com base em uma linha de pensamento moral, as pessoas são consideradas seres autônomos e livres, isto é, as pessoas são capazes de criar as próprias leis que conduzirão os propósitos finais das relações sociais. Nesse caso, a “lei de ouro” nada mais é do que a proposta de estabelecer um propósito final para mim mesmo, mas que, ao mesmo tempo, valha para todos. É simples assim: o modo como quero viver a minha vida deve valer ao outro, se assim ele quiser viver a vida dele.

Se um indivíduo tem como propósito de vida, por exemplo, matar ou roubar, a lei de ouro diria que matar ou roubar deveria valer pra todos. A consequência disso é clara. Todos os laços sociais seriam rompidos e a desconfiança e a insegurança determinariam as relações sociais na comunidade. Por isso defendemos o respeito e a honestidade como lei de ouro. O limite dessa linha de pensamento moral também é clara. Quem são aqueles que vivem suas vidas baseadas no princípio moral da lei de ouro? Pois é.

De qualquer modo, na perspectiva filosófica, vontade popular pressupõe uma “vontade” que emana do povo, no caso dos pleitos eleitorais, da maioria da população votante e que aponta, ao final, a pessoa que julgamos moralmente “certa” para ocupar cargos de prefeito, vereadores, deputados e senadores.

A coisa não é bem assim na perspectiva política. Aqui, vontade popular pressupõe uma “vontade” que emana da capacidade do marketing, no caso dos pleitos eleitorais, da eficácia da campanha política.

A qualidade do “cheque em branco” que o povo passa aos seus gestores e legisladores públicos por meio da sua vontade, da “vontade popular”, tem um caráter obscuro, no sentido de uma projeção do inconsciente. Explico. Os marqueteiros políticos já descobriram há tempos que os propósitos reais de uma pessoa são frutos de seu inconsciente, o que significa que ninguém consegue entender as próprias decisões por inteiro. Nesse caso, a “lei de ouro” nada mais é do que a proposta de minar a autonomia das pessoas por meio de mensagens oportunistas que apelem aos desejos inconscientes das pessoas. É simples assim: aquilo que as pessoas consomem e em quem as pessoas votam será determinado em salas fechadas de marqueteiros.

Se um candidato for o melhor ou o pior para a cidade pouco importa já que a lei de ouro determina que ninguém consegue entender as próprias decisões por inteiro. A consequência disso é clara. Se um plano de campanha é voltado ao bem das pessoas ou se ele é voltado à mentira e ao assalto dos cofres públicos quem vai determinar quem será eleito será a campanha de marketing. O limite dessa linha de pensamento político também é clara. Quem são aqueles que vivem suas vidas para julgar e punir os usos e abusos do princípio político da lei de ouro? Pois é.

Sobre Beto Cavallari 181 Artigos
Sou editor do jornal online MG e escrevo sobre política, cultura, tecnologia e educação.

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