50 tons de preconceito, repressão sexual e machismo

Texto de Liliane Gusmão

Cena dos filme '50 Tons de Cinza' (2015).
Cena dos filme '50 Tons de Cinza' (2015).

O filme ’50 tons de Cinza’ chega finalmente aos cinemas. E com ele voltam as questões sobre a trilogia. Eu li os livros, mais de uma vez. Eu li sobre os livros em vários locais diferentes. E fiquei intrigada em descobrir por quê esse livro, que me provocou tanto incomodo, fez e faz tanto sucesso. Eu não sei se descobri, mas queria compartilhar o que penso com vocês.

Para começar, eu li o livro em inglês numa cópia de revisão que foi disponibilizada na internet quando o livro foi lançado em português. Eu li porque sou curiosa. Nunca tinha lido nenhum livro de literatura erótica e o mais perto que cheguei de pornografia foi ‘Delta de Vênus’ de Anaïs Nin.

Antes de ler o livro, li sobre ele. Muita gente, dizendo que não leu e não gostou. Gente dizendo que era muito mal escrito e que não passou da página 20. Gente dizendo que não leu porque era ofensivo demais. Enfim, era um consenso, nas minhas relações, que todo mundo achava que o livro era uma porcaria. E foi ai que ele me conquistou. Eu tinha que ler esse lixo pra ter minha opinião sobre isso. Foi por isso que eu li o Alquimista de Paulo Coelho, todo mundo falava tanto sobre o livro que eu tive que ler.

A primeira coisa sobre o livro é que, como literatura erótica, ele é uma decepção. Especialmente para quem, como eu, queria ler um livro sobre BDSM. O livro é érotico, mas mesmo para uma pessoa como eu — heterossexual e monogâmica com mais de 40 — é um livro bobo. É um romance de banca de revista, escrito por alguém com um catálogo de sex toys do lado, só que o manual dos sex toys é ultrapassado.

Mas isso não descobri lendo o livro. Lendo o livro eu fiquei incomodada com o roteiro. Uma história tipo Júlia, moça linda e pobre se acha horrível e encontra rapaz lindo e rico que se apaixona por ela, se casam e terminam todos felizes no gramado da mansão dele, com suas crianças lindas ao redor. Um livro extremamente clichê.

Eu fiquei incomodada com o que é dito sobre BDSM no livro, o BDSM é tratado como um desvio de caráter, uma doença cuja cura é o amor. Fiquei chocada como a mocinha é preconceituosa, mesquinha, machista e extremamente moralista. Fiquei incomodada como esse romance é misógino, como o galã — um cara de 27 anos — tem uma mentalidade mais atrasada que a do meu pai, que se fosse vivo teria 80 anos. E fiquei incomodada com outras coisas que não soube elaborar, não soube apontar. Fiquei intrigada, como um livro tão bobo, tão pobre em BDSM podia ser considerado um marco no segmento e podia ser consumido tão vorazmente.

Então, comecei a buscar pessoas que tivessem lido o livro e estivessem dispostas a discutir sobre ele. E isso se provou impossível. A maioria das pessoas da minhaentourage não estava nem aí pro livro. Então, alguém me indicou um blog que estava resenhando o livro. E, partindo daí, eu encontrei a Jenny Trout, que é escritora de romances eróticos e que tem um blog onde encontrei uma resenha dos livros da série, capítulo por capítulo, apontando todos os absurdos e foi aí que eu percebi o que tanto me incomodava.

A trilogia dos ’50 Tons de Cinza’ é uma fanfiction baseada na série ‘Crepúsculo’ de Stephenie Meyer (lembram do vampiro apaixonado?), que fez um baita sucesso entre os leitores e foi adaptado (ou seja, mudaram os nomes dos personagens) para poder ser vendido como obra original. Sim, amiguinhes esse é o mercado editorial.

Para quem lê inglês e se interessa pelo tema, mas não quer ler o livro, eu sugiro a leitura da resenha feita por Jenny. Ela é hilária e expõe toda a problemática do livro. Para quem quer ler literatura erótica, ela também é uma boa opção.

E agora, faço um resumo do que é problemático. Christian é um stalker, manipulador, extremamente machista e condescendente. Ana é moralista, mesquinha, preconceituosa e sem nenhuma autoestima. Ele teoricamente seria o mentor de BDSM dela, mas não se comporta assim. Ele nunca informa a ela nada sobre as cenas que eles vão fazer. E por isso ela nunca pode consentir, que é o mais importante nesse tipo de prática, sobre o que vai ser feito. Ela não tem parâmetros para entender o que está vivendo (a relação BDSM) e ele se aproveita disso, da fragilidade e desinformação dela. No que tange o BDSM, o livro é um manual do que não deve ser feito e a utilização de brinquedos sexuais é limitadíssima. E olha que eu não sou praticante de BDSM e pelo livro fica claro que a escritora também não é.

Os personagens são rasos e sem nenhuma consistência ou humanidade. As cenas de BDSM são poucas e muito repetitivas, as cenas de sexo tediosas até. Em certo ponto da trilogia eu pulava as cenas de sexo porque é sempre mais do mesmo. As personagens não falam abertamente de sexo, os genitais não são nomeados, em alguns momentos tive a impressão que o romance tinha sido escrito por mim, aos 11 anos de idade.

Em mais de 1500 páginas de um romance erótico, a palavra pênis aparece uma única vez, e não me lembro de ter lido a palavra vagina ou clitóris ou qualquer um de seus apelidos no livro inteiro. Ela fala de sexo anal como algo sujo, proibido e pecaminoso.  Quando ela se refere ao pênis de Christian é sempre como “a ereção”, o que me levou a pensar que ele na verdade era o dono da farmacêutica que produz o viagra.

A mocinha é tão pudica e alienada que acredita em cavaleiros que resgatam princesas. Ela repete insistentemente que o amor dela vai libertar ele das trevas que são seus desejos, ou seja o BDSM. E foi aí que eu entendi porque esse livro faz tanto sucesso. E é bem triste que ele faça tanto sucesso. O sucesso dos ’50 Tons de Cinza’ é baseado no preconceito, na repressão sexual e no machismo da nossa sociedade.

Penso em ver o filme. Há notícias de que algumas características e diálogos do livro foram modificadas e por isso a própria autora estaria propondo um boicote. Há tambémativistas propondo um boicote ao filme, por glamourizar relações de abuso e violência doméstica. A autora se defende dizendo que a história relata uma fantasia e que todas as mulheres tem direito a elas. Lamento apenas que seja a fantasia do príncipe encantando reeditada com todo seu moralismo. Como diz Natalia Engler em sua crítica: “o público merecia mais. E não só em termos de sexo. Mas isso não deve ser um problema para a bilheteria”.

No fim, acredito que muitas pessoas gostam dessa trilogia porque os livros são o moralismo fantasiado de sacanagem. É uma relação entre duas pessoas em que uma é extremamente controladora e a outra, que não tem voz no relacionamento, é a salvadora. Não há novidades, nem mesmo no que se refere ao prazer feminino, muito menos aos papeis que homens e mulheres representam. É tudo preto no branco.

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