Unesp Marília sedia 9ª edição de evento de Filosofia mundialmente reconhecido

Filosofia em pauta

Entrada da Unesp Marília. Foto: Unesp Marília

O IX Colóquio Kant “Clélia Martins”, em homenagem a Professora do Departamento de Filosofia da Unesp de Marília, apresentou o tema “Pensar [o] A-Priori: Tema e Variações”. O evento, que é reconhecido mundialmente em sua área, aconteceu em Marília no início de agosto e reuniu pesquisadores de Universidades do Brasil, Estados Unidos, Chile, Alemanha, Eslováquia, Itália e Portugal.

O evento é organizado pelo professor Ubirajara Rancon de Azevedo Marques, o Bira, que, além de se ocupar com todos os trâmites e responsabilidades burocráticas que envolvem a organização de um evento desta envergadura, com a participação de convidados de diversas partes do Brasil e do mundo, ainda achou tempo para convidar alguns colegas para um recital musical.

É sobre música clássica em Marília, o pensar filosófico na atualidade e mais que o professor Bira conversou, com exclusividade, com o Marília Global.

Prof. Ubirajara Rancan de Azevedo Marques, o Bira.
Prof. Ubirajara Rancan de Azevedo Marques, o Bira.

Marília Global (MG): Qual é o resultado prático destes encontros realizados bianualmente?”

Professor Ubirajara Rancon de Azevedo Marques (Bira): As mediações entre “teórico” e “prático” serão dificilmente reconhecíveis nalgumas áreas do saber, bem mais facilmente noutras. No caso de encontros científicos, “teóricos” de estudiosos que se dediquem à obra de um determinado pensador – Kant, no caso em pauta –, o resultado, o ganho “prático” de uma reunião assim não será nem mesmo indiretamente palpável para quem não mantenha um mínimo de intimidade autêntica com as coisas da filosofia. Já para quem assim proceda, o “resultado prático” será eminentemente – teórico.

Muito felizmente, a meu ver, a reflexão filosófica não tem uma aplicabilidade concreta inerente, intrínseca, necessária. Dito doutro modo: o filósofo não tem de pressupor um objetivo “prático” – qualquer que seja ele – a que a sua meditação devesse teleologicamente conduzir.

MG: Qual a importância de Marília receber representantes de tantos países, nestes eventos?

Bira: Para Marília como um todo, a importância da vinda regular de um número relativamente grande e crescente de estudiosos europeus, norte-americanos e sul-americanos à cidade, por aproximadamente uma semana, a cada dois anos, estará no fato de, com isto, ela ter sido posta e manter-se no mapa mundial [também no brasileiro…] da filosofia kantiana. “Mundial”, sim, pois os colóquios kantianos de Marília [já desde 2004] têm recebido alguns dos mais representativos nomes da atualidade no âmbito dos estudos sobre o pensamento de Kant, filósofo que, por sua vez, está entre os mais estudados no Brasil – e no mundo.

MG: A realização do recital musical é uma tentativa de oferecer cultura diferenciada para a população?

Bira: Poderia em alguma medida ser, em alguma medida ter sido, ao menos para uma parte da população local, pois a carência de recitais e concertos de música erudita em Marília é bem considerável, sobretudo se se tiver em conta o relativo desenvolvimento econômico da cidade, que, neste caso, não se fez ainda acompanhar de uma agenda artística proporcional a ele, culturalmente decente, politicamente responsável. Contudo, no caso presente tratou-se mais do encontro da fome com a vontade de comer… Tendo sido pianista erudito por muitos anos, solista e camerista, e sempre desejoso de voltar a praticar a Tonkunst, a “arte dos tons”, ao saber que o caro colega norte-americano Robert Louden era também violinista, convidei-o para que tocássemos uma peça para estes dois instrumentos, o que ocorreu com a Sonata no. 8 de Mozart, para violino e piano. Tendo igualmente sabido da carreira musical do filósofo belga Henny Blomme, convidei-o para um pequeno recital de piano. E assim se deu o recital musical do último dia 6 de agosto… Para uns, puro desperdício [como o próprio encontro filosófico recém-encerrado…]; para outros, a oportunidade dum ar mais puro [ou “puro a priori”…]. “Gosto não se discute…” – mas se adquire.

MG: Desde que começou a ser realizado, qual tem sido a abrangência de participação do público?

Bira: O público é ainda pequeno, e mesmo especificamente pequeno, não obstante a grandiosidade filosófica do evento, atestada, por exemplo, pela penúltima publicação a ele vinculada, o livro Kant’s Lectures / Kants Vorlesungen, lançado há pouco pela mundialmente prestigiosa editora alemã De Gruyter, a mesma que, há décadas, publica, por exemplo, os “Escritos Reunidos” de Kant… Esta relativa pequena participação de público, mesmo de público filosófico, será decorrente de vários fatores, entre eles o econômico, que dificulta o deslocamento, para cá, de quem esteja em universidades localizadas nos grandes centros, e sobretudo a permanência, na cidade, por um período já relativamente longo, em especial no caso de estudantes.

MG: Atualmente vivemos no século da informação. Elas vêm de diferentes partes, por diferentes meios. Como a Filosofia consegue sobreviver em meio a essa sobrecarga de informações? Como ela consegue competir com as outras áreas e atrair jovens com potencial para exercê-la?

Bira: Não percebo bem o porquê do estupor oculto diante da suposta capacidade da filosofia em “sobreviver” a uma “sobrecarga de informações”, tampouco a razão do mesmo face a uma eventual competição entre ela e “outras áreas”, todas como que numa disputa pela conquista do maior número dos que as exerçam. Poder-se-ia, em tom de blague, mas também a sério, justamente dizer que a filosofia “sobrevive” também por haver uma “sobrecarga de informações” e um sem-número de “áreas” de interesse cuja eficácia é medida pela capacidade própria em atrair o maior número de interessados em exercê-las. Noutras palavras: a filosofia será bem mais propriamente centrípeta do que centrífuga. Melhor: apesar das roupagens com que nos disfarçamos para nós próprios e dos esforços espontâneos com que nos afastamos de nós mesmos, seremos, ainda, preferencialmente centrípetos – donde, pois, encontrarmos espaço para a filosofia. Mal comparando, eu poderia lembrar, de um lado, o retumbante, estonteante, inequívoco, incomparável sucesso mundial das cadeias de fast-food; doutro, o discreto charme de um restaurante slow-food…

MG: Como transcender a superficialidade e ver os temas importantes da sociedade, usando a filosofia?

Bira: Creio que uma grande, enorme parte da humanidade não reconheça a “superficialidade” de determinados comportamentos, crenças, atitudes, conhecimentos, processos – quer os tome como profundos, quer simplesmente não os considere –, tidos por outros – filósofos ou não – como exemplarmente superficiais. Se assim, será de saída problemático conferir universalidade ao “superficial”, como, no mesmo passo, fazê-lo em relação ao “profundo”. Mais ainda: considerar a filosofia como uma ferramenta de transcendência do “superficial” para o “profundo”, do descartável para o necessário, como se tal movimento devesse tornar-se espontâneo, mecanizado, de algum modo institucionalizado. Proceder assim – por meio da sua instrumentalização – causaria enorme desserviço à filosofia, sem que, parece-me, ela viesse com isto a ser autenticamente estimada e praticada. Penso que a filosofia não somente não possa, mas tampouco deva ser tratada como se lhe conviessem a universalidade e a instrumentalidade de outros gêneros de conhecimento e investigação. Prefiro pensá-la também embalada pela sombra da universalidade artística, não só perturbada pela sombra da universalidade científica.

Posto isto, não sou contrário à prática institucionalizada de alguma forma de filosofia no âmbito da educação formal, sendo em princípio favorável a ela – muito embora, desgraçadamente, pareça haver os que aí a tomem unicamente como resposta, não como interrogação. Esta sorte de instrumentadores da filosofia não me parece ter compromisso com ela, estando compromissada com causas não exatamente filosóficas.

MG: Os temas filosóficos atuais mudaram, em relação ao advento desta vertente de estudo. Quais são as prioridades filosóficas do mundo moderno?

Bira: Eu sentiria muita dificuldade para concordar com a tese geral sobre as mudanças dos “temas filosóficos atuais”, até mesmo quanto ao que fossem “temas filosóficos” atuais, perante os quais, então, outros haveria, supostamente – inatuais. Embora parte do estudo da filosofia esteja compartimentada em disciplinas como “História da Filosofia Antiga”, “Medieval”, “Moderna” e “Contemporânea”, parece-me um equívoco profundamente nefasto vincular a esta cronologia histórica o suposto tempo de vida útil de cada filosofia ou dos temas que as engendraram.

Decerto que, afora uma nova roupagem, outros temas e subtemas surgiram, os quais foram absorvidos pela meditação filosófica, eles a ela tendo recorrido. Se, porém, no limite, cada filosofia estivesse atrelada a um tempo de vida preciso, aos limites entre um “velho” e um “novo” conceituais, aquelas absorção e recorrência não teriam sido possíveis ou a sua realidade seria oca – o que, contudo, não me parece ser o caso…

MG: Questões como a inteligência artificial fazem parte das discussões filosóficas da atualidade?

Bira: Certamente que sim!, já no próprio âmbito do Departamento de Filosofia da UNESP, em Marília, o qual, neste aspecto, ecoa parte importante das discussões filosóficas contemporâneas em nível mundial. A propósito, Kant – e, com ele, qualquer outro [grande] filósofo, de que época for – é uma das referências na contemporaneidade filosófica, também para os estudiosos da “inteligência artificial”.

Beto Cavallari contribuiu.
Sobre Carlos Teixeira 106 Artigos

Ele é jornalista com conhecimento em diferentes mídias (rádio, jornal, televisão e internet) e responsável pela empresa “O Porta Voz – Assessoria de Comunicação”.

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