Trilogia do terror – Vidas humanas têm ranking?

Foto: The Medical Bag.

Este título pode parecer pretensioso da minha parte mas a angústia em tentar colaborar com a discussão encoraja essa pretensão. Ainda estão sendo contabilizadas as vítimas das tragédias de Mariana-MG e Paris, mas ainda não chegaram a conclusão de qual delas é a mais importante. Como se fosse possível escolher vidas a valer mais que outras…

[contextly_auto_sidebar]Haverá ainda aquele grupo que dirá que os mortos em Uganda, Gabão e outros países africanos são esquecidos, o que é verdade, mas por isso são mais importantes que os outros. Alguns, com o pensamento dito de esquerda, tripudiam da tragédia no berço do Iluminismo afirmando que “imperialistas colhem o que plantam”. E o show de horrores facebooquiano não pode parar! Assim, seguimos numa discussão muito distante de debater as soluções dos problemas pois, sem debruçar sobre as causas, será impossível chegar a uma alternativa para, de fato, minimizar o sofrimento de tanta gente ao redor do mundo.

Mais pertinho de nós, em Mariana, ATÉ AGORA, foram OFICIALMENTE  contabilizadas 11 mortes. Mais: olhemos para o nosso quintal. Em Marília, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo, apenas até agosto de 2015, já foram registrados oito homicídios, mais 21 mortes no trânsito. E, sem entrar numa “pirâmide de sofrimento,” pois minha intenção não é fazer ranking nem fla-flu, os estupros na cidade já passaram de 35.  Sim, o estupro também é uma forma de terrorismo, acreditem.

Em Paris, já passam de 132 as vítimas fatais do que consideram “o maior ataque desde 2004”, segundo a péssima Folha de São Paulo. Voltemos agora ao nosso contexto. Só na cidade do Rio de Janeiro, este ano, até agosto, já não existem mais 272 cidadãos vivos para contar histórias. Lembrando que, em função do desarmamento civil, esse é o “melhor número desde 1991 quando começaram a ser coletados pela Polícia Civil.”

Devo tomar todo cuidado para, ao apresentar esses números, não cair na armadilha fácil da comparação que tenho visto nas redes sociais. A intenção é alertar sobre os vários problemas a refletir e combater.

Mas devo advertir também sobre o fato de que essas mesmas pessoas de esquerda citadas acima podem cair nessa cilada. Essa gente que se julga “acima do bem e do mal da manipulação” deve ter o cuidado de perceber que todos nós podemos ser manipulados, seja pela imprensa de massa, seja por outros órgãos que não sabemos exatamente quais interesses possuem. E ainda podem ser traídos pelos seus dogmas que, de tão cristalizados, podem se tornar uma espécie de “fundamentalismo às avessas”, numa lógica semelhante a da Teoria da Ferradura.

Caro e escasso leitor, observe no exemplo que fala que “imperialistas colhem o que plantam”. Sabemos que a esquerda afirma corretamente, e com base em diversos excertos, que “violência só gera violência” e o que precisamos é de uma cultura de paz. Não fica difícil, portanto, perceber a incoerência no discurso. E acrescento que entendo esse inconformismo com um sistema tão injusto, mas esse pensamento não se justifica. Além do mais, os atentados ocorreram nos distritos 10 e 11, com grande concentração da população muçulmana de Paris.

Dessarte, o que cabe a TODOS é sair do senso comum e encontrar soluções pragmáticas, fruto do debate amplo e tolerante. A partir disso perceberemos que a violência não é causa, mas consequência, de vários problemas, fruto de uma realidade cruel provinda de um sistema que não se importa com o destino da maioria dos seres no planeta.

Para começar, um pouco de Humanidade, com letra maiúscula, só ajuda: o mal a ser combatido, também está dentro de nós.

Sobre André Vitor 16 Artigos

André Vitor faz Mestrado em Literatura e Vida Social na Unesp, é professor de Literatura, Redação e Bateria. Em suma, cruza e corre na área para cabecear.

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