19 de August de 2018

Movimento vegano e onde encontrá-lo em Marília

Um exemplo de prato vegano, disponível no blog Vegano pelo Mundo
Um exemplo de prato vegano, disponível no blog Vegano pelo Mundo

No mês passado, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) publicou uma notícia sobre um professor vegano que foi dispensado de suas funções em Minas Gerais. O professor começou a receber reclamações dos pais dos alunos por abordar as temáticas que defende em sala de aula.

O fato do professor tratar de assuntos que questionam costumes e tradições naturalizados na nossa sociedade incomodou. Incomodou a ponto de ele ser afastado de seu cargo, sem conseguir um diálogo antes disso. A falta de debate e intolerância em relação a uma opinião que destoa do status quo me trouxe diversas reflexões. Uma delas é a de que a origem da aversão  a opiniões diferentes é vinculada à falta de conhecimento – ou de abertura para conhecer, afastada de pré-conceitos – sobre essas opiniões ou posições. Pensando nisso, decidi trazer o tema do veganismo para a coluna desta semana.

O termo veganismo foi cunhado no Reino Unido, em 1944, pela Sociedade Vegana (“The Vegan Society”) e diz respeito a uma filosofia e estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, as formas de exploração e crueldade contra animais. Assim, aqueles que se identificam com o veganismo não consomem produtos ou alimentos de origem animal e promovem o desenvolvimento de alternativas a esses produtos. Ao confrontar as indústrias e ideologias por trás do consumo da carne e outros produtos de origem animal, os veganos pensam no benefício não só dos animais, mas do meio ambiente e dos seres humanos.

Quando se trata da alimentação, os veganos, assim como os vegetarianos, não comem carne animal (de qualquer origem: bovina, suína, de frangos ou peixes). O que os diferencia dos vegetarianos é que eles excluem de sua alimentação também os ovos, leite e seus derivados.

Conversei com a bibliotecária Gislaine Matos, que é vegana, e ela me contou um pouco sobre como conheceu o movimento “O meu contato maior com o veganismo foi através da internet em pesquisas por conta própria”. A culinarista Valéria Lima também colaborou com a coluna, tendo conhecido o veganismo como uma demanda de seu trabalho. Desde 2012, ela prepara e entrega alimentos vegetarianos e veganos pelo ‘Cozinha V’.

Como o hábito da alimentação é diário e muitas vezes social, diversos veganos se deparam com o estranhamento vindo daqueles que desconhecem seus princípios. “Muitos acham estranho por pensar que veganos só comem ‘alface’, mas há uma imensa variedade de alimentos para nós, incluindo doces, pizzas, salgados e todo tipo de delícia.”, relatou Gislaine. “Existe sim um pré-conceito de quem ainda come carne, mas na verdade enxergo-os como escravos do paladar, pois é sim muito possível viver sem carne e livre de crueldade, a favor da libertação animal e humana, e nós somos provas disso.”

Outra questão que costuma gerar polêmica e comentários contrários à escolha de quem é vegano é o da nutrição. O veganismo vem desconstruir preceitos há muito naturalizados e diversas estruturas baseiam esse processo de naturalização. A idéia amplamente divulgada de que a retirada da carne ou dos outros alimentos de origem animal da dieta resultam em malefícios nutricionais é também confrontada pelo veganismo. Atualmente, diversos nutricionistas, médicos e cientistas são veganos e comprovam que os vegetais, legumes, frutas, hortaliças e grãos que fazem parte da alimentação vegana contém todos os nutrientes necessários para o ser humano poder manter uma vida saudável  sem adicionar nenhum alimento de origem animal à sua dieta.

“Podemos usar o exemplo de vários atletas que seguem uma dieta vegana e são mais saudáveis que muitas pessoas que consomem carne e outros derivados animais regularmente. É claro que precisamos nos atentar às nossas substituições. Não é só na carne que encontramos proteínas e não é só no leite que temos o cálcio, mas estamos condicionados a pender para o lado mais prático e não refletir. É necessário sempre pesquisar, ler e se informar, e isso é uma das coisas mais incríveis no veganismo, a gente sempre descobre coisas novas e muito ricas para agregar à nossa alimentação.”, afirmou Valéria.

O veganismo vem ganhando força internacionalmente há anos, sendo que em diversos países, principalmente na Europa, já existem restaurantes e lojas veganas espalhados pelas cidades. Na Índia,  por pressão de monges contrários ao abate animal, a cidade de Palitana proíbe por lei a venda de qualquer tipo de carne animal e de ovos para consumo ou mesmo a sua produção para exportação.

Diversos sites tem receitas e discussões sobre o veganismo. Um exemplo é o canal Panelaço do YouTube, no qual João Gordo prepara pratos veganos. Reprodução/ YouTube
Diversos sites tem receitas e discussões sobre o veganismo. Um exemplo é o canal Panelaço do YouTube, no qual João Gordo prepara pratos veganos.
Reprodução/ YouTube

No Brasil,  “ainda existe muita desinformação sobre a alimentação vegana (até mesmo em relação à vegetariana), já que o consumo de carne é muito cultural do brasileiro. Mas vejo cada dia mais pessoas se atentando às possibilidades e aos benefícios de uma alimentação mais saudável que é a vegana, seja por consciência ou por saúde. Mesmo que pouco a pouco, o movimento está se espalhando e isso é muito positivo.”, comentou Valéria.

Em Marília, já há projetos de venda de produtos veganos. Gislaine indicou que “No facebook há um grupo chamado ‘Vegetarianos e Veganos de Marília-SP’, onde há uma lista com locais onde contém alimentação livre de crueldade”.

A expectativa daqueles de defendem o veganismo e o escolheram como filosofia de vida é de que cada vez mais pessoas conheçam o movimento, de forma que os pré-conceitos possam ser superados.

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