1 de April de 2020

Carta aberta (também) à Mark Manson

O brasileiro tem a suscetibilidade aguda de uma menina de quinze anos. Qualquer coisinha o fere. Por qualquer motivo fica de burro e fecha-se no quarto batendo a porta engolindo soluços. Suscetibilidade de povo adolescente. Falta de traquejo internacional. Caipirismo. Em tudo enxerga uma afronta. Vive desconfiado. De ouvidos bem atentos que é para saber se estão falando mal dele. Depois vaidoso como ele só. Mendiga o elogio estrangeiro (como se dele precisasse para viver). Dá um passo e olha logo para a Europa para ver se a Europa aplaude. Que nem artista de café-concerto.

Entre nós se caçoa muito dos brasileiros que descobrem o Brasil na Europa. Só lá fora mesmo é que se pode fazer uma ideia justa do colosso que isto é. Vendo aqueles homens esgotados. Aqueles campos chupados. Aquelas tradições asfixiantes. Os milhões de vagabundos à força. Aquele desânimo. O cerebralismo doentio dos mentores. A tremenda revolta dos dirigidos. A luta carniceira pela vida. A indecisão do presente. O receio do amanhã. E a fome. O desespero. A esterilidade. Então a gente se lembra de que deixou um país onde tudo está por fazer. E avalia bem a felicidade que isso representa. País virgem à espera de fecundação. Sem o peso morto do passado. Até sem presente. Vivendo todo para o futuro. País delicioso pelas suas possibilidades ignoradas. País delicioso pelos seus defeitos visíveis. Tão forte e tão pitoresco. Tão grande e tão ingênuo. Tão bonito e tão engraçado. País pixote. Pixote prodígio. De pés no chão e fura-bolos no nariz.

Foto: Culturas e Religiones.
Foto: Culturas e Religiones.

O brasileiro dá um pulo até a Europa e volta botocudo como foi. Reforma o guarda-roupa mas não reforma as ideias. Seu espírito fivela de crítica e observação faz com que ele se assombre justamente diante daquilo que a Europa tem de horrível e insuportável: o peso de suas tradições milenárias. Ao invés de vaiar, gozando a sua superioridade, aplaude tamanha inferioridade, invejando-a.

Meu caro leitor você já leu? Refletiu? Então…

Esse texto é de Alcantara Machado na crônica “Relações Exteriores.” Estamos aqui nos remetendo à 1929! Quer dizer, com um direto no queixo, um golpe que impõe à uma viagem literária à força, há cem anos estamos sendo moldados por um pensamento eurocêntrico que estabele um padrão a ser seguido. E hoje, meu caro leitor, negamos nossa cultura mais genuína porque ratificada no seio do povo: samba, futebol, carnaval… Ao invés de nos orgulharmos, nos envergonhamos. Queremos, acredite, transformar nossa cultura em uma cultura do trabalho. Até alguns antropólogos propõem isso, veja você! Uma cultura que sufoca, exaure, padroniza e nos transforma em bonecos defensores da ordem do politicamente correto negando o entrudo, negando a panacéia de nossas raízes.

Aí, meu caro leitor, você ainda poderá dizer: mas éramos um país primitivo e em formação. Sim, mas estamos e estaremos sempre em formação. E esse conceito de primitivo também não seria um discurso legitimador de uma superioridade de raças? Não poderíamos, na verdade,  estar buscando um misto de organização e malandragem, um modelo flexível que pode nos manter leves, respeitando nossa informalidade e criatividade advindas do ócio criativo? Não poderíamos também aceitar influências sem que precisemos para isso negar nossos movimentos genuínos?

Entretanto, se ainda resistimos, há mais de cem anos, a essa investida tecnocrática europeizante, e agora com a visão simplista de um tal de Mark Manson, um representante obtuso da objetividade, posso garantir com brilho nos olhos que ainda há tempo de salvar o que ainda nos resta de ingenuidade e dignidade cultural.

De passagem… Eu não ser cordial também é uma forma de negar esse pensamento.

Entre na conversa...