Representantes de classes empresariais fingem não perceber os problemas da cidade

Atual prefeito de Marília, Vinícius Camarinha, se reúne com lideranças e representantes de classes. Foto: Wilson Ruiz.
Atual prefeito de Marília, Vinícius Camarinha, se reúne com lideranças e representantes de classes. Foto: Wilson Ruiz.

No final de 2015, o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, anunciou que tanto a federação quanto o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) estariam oficialmente a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. De acordo com a reportagem do jornal O Globo, teria sido a primeira vez que duas das principais entidades de classe do empresariado no Brasil se posicionavam em bloco e oficialmente sobre o processo de impedimento de um presidente.

Também no final do ano passado, o presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, Alencar Burti, anunciou em um evento realizado no Guarujá, que as associações comerciais paulistas deveriam se envolver mais com problemas na comunidade, e principalmente no debate político. O evento contou com a participação de representantes da Associação Comercial e Industrial (ACI) de Marília.

As recomendações efetuadas por essas federações são oportunas e descem ao plano das comunidades locais. É que o problema não se resume à corrupção no governo federal, pois ela se encontra disseminada por todos os níveis de governo (federal, estadual e municipal). E o seu combate apenas no plano federal soa como um posicionamento meramente oportunista, que não resolve o problema, eis que a sangria de recursos públicos é geral. E não adianta só ficar publicando dados do Impostômetro ou pedir o Impeachment da Presidente para chamar a atenção da população, sem nada fazer localmente para estancar a sangria.

Em Marília, por exemplo, a obra de afastamento e tratamento do esgoto da barragem do Córrego de Ribeirão dos Índios, a chamada “Obra do Século”, já se arrasta por 25 anos e já consumiu dezenas de milhões de reais dos cofres públicos. A obra continua parada e os últimos eventos geram dúvidas na população se haveria indícios de corrupção em grande escala aqui.

A justificativa inicial da Prefeitura para a paralização foi que o Ministério das Cidades não estaria repassando as verbas públicas para a Prefeitura. Essa prática foi desmentida pela OSCIP – Matra, por meio de resposta por ofício enviado ao Ministério das Cidades. A segunda justificativa dizia que a OAS parou a obra por conta de um aditamento de 30% ao contrato original, solicitado ao prefeito e este não concordou, justificando falta de caixa nos cofres públicos. Esse truque é velho conhecido nas práticas das empreiteiras versus poder público. É uma forma de inviabilizar e parar a obra para continuar no mandato seguinte. Faz quase trinta anos que isso acontece em Marília. O final da discussão sobre a obra que novamente parou numa administração resumiu-se à prática de sempre. Rescisão contratual de forma amigável entre Prefeitura e OAS sobre a Obra do Século, na qual a prefeitura ainda terá que pagar mais R$ 20 milhões à empreiteira envolvida na Lava Jato,  além de um monte de milhões que lá estão enterrados e apodrecendo. Logo após o anuncio de quebra de contrato, a Prefeitura anunciou a privatização do Daem. O que a sociedade ainda se pergunta é se um dia o Ministério Público vai elucidar toda essa história.

Por sua vez, a privatização do Daem gerou uma outra “novela” na cidade. Primeiro, a Câmara Municipal aprovou o Projeto de Lei em tempo recorde. Foram cerca de 20 dias entre o envio do projeto de Lei da Prefeitura e a aprovação pelos vereadores. O processo, na Câmara, foi cercado de tensão e dúvidas. O mariliense ficou se perguntando qual seria o real interesse por trás dessa “pressa” dos vereadores governistas na aprovação de Projeto de Lei de suma importância. Muitos marilienses exigiram do poder público atual um debate mais aberto e transparente com a população. Aprovada a privatização do Daem, edital de licitação publicado, a abertura do processo de licitação ainda não foi possível. É que o TCE (Tribunal de Contas do estado) apontou inúmeras irregularidades no edital, o que as qualificou de “vícios”.

No âmbito do legislativo, o presidente da Câmara dos Vereadores, o vereador Herval Rosa Seabra, está condenado em 1ª instância por peculato, desvio de dinheiro público da própria Câmara que ainda preside. Outro vereador, José Menezes, também foi condenado em 1ª instância por falsificação de diploma universitário. O deputado estadual Abelardo Camarinha se defende de condenação por abuso de poder político e econômico, tendo sido provado “vínculos” de Camarinha com jornais e rádios na cidade durante as eleição de 2014. O nobre deputado perdeu recentemente o recurso contra a cassação de mandato e ineligibilidade por oito anos.

Já dentro da Prefeitura, o deputado Camarinha foi condenado a devolver aos cofres públicos cerca de R$ 11 milhões. O ex-prefeito cometeu irregularidades no uso de verbas federais destinadas à construção da barragem para captação de água do Ribeirão dos Índios. Após ação do Ministério Público Federal, a 2ª Vara Federal de Marília condenou o ex-prefeito e José Luís Dátilo, ex-secretário municipal de obras públicas, por atos de improbidade administrativa. Poucas semanas antes da sentença, Dátilo foi acolhido na Administração Vinícius Camarinha. Ele é o atual secretário municipal de Meio Ambiente e Limpeza Pública.

Outra caixa de pandora é a relativa as verbas de publicidade e propaganda. Há mais problemas com a política local. Porém, alguns dirigentes locais ligados aos setores da indústria e comércio fazem ouvidos moucos às mazelas que aqui ocorrem e se comportam como se Marília fosse uma ilha cercada de corrupção por todos os lados, mas que não atingem o seu solo sagrado. Como se as mazelas aqui referidas não lhes dissessem respeito e os impostos que abastecem os cofres municipais não saíssem dos bolsos da população e das próprias empresas.

Basta observar que na semana passada, durante evento na Prefeitura para lançar novo pacote de obras para este ano, quando se realizarão as eleições municipais para prefeito e vereador, alguns desses dirigentes locais se colocaram na contramão de seus diretores nacionais. Na ocasião, eles se limitaram a apenas tecer elogios a atuação do atual governo municipal.

De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura, Libânio Nunes Oliveira, presidente da ACI (Associação Comercial e Industrial) Marília afirmou que,

“As obras anunciadas pelo prefeito confirmam que Marília está em pleno desenvolvimento, apesar do grave momento da crise do país. A parceria entre Acim e Prefeitura vai continuar forte”.

Marcelo Montagnana, gerente regional do Sebrae, afirmou que,

“Fico plenamente satisfeito com essas realizações, inclusive para o desenvolvimento do campo empresarial. Marília apresenta grandes obras e grande perspectiva”.

O Marília Global inclusive já procurou algumas dessas autoridades empresariais no passado para repercutir a política local e estadual. Em um caso específico, o jornal recebeu retorno de que certa autoridade não se pronuncia sobre a política local. Pelo visto, para este representante de classe, pronunciar é fazer crítica. E o que eles gostam mesmo de fazer em tempos de passar o Brasil à limpo é apenas puxar… elogiar o poder público local.

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