Brasil: Teatro do absurdo?

A ordem e a justiça. Foto: Internet.

Um cara que se propõe a estudar e pesquisar determinado assunto precisa se vestir com o manto da imparcialidade e racionalidade. Dito isso, confesso a dificuldade em escrever este texto que trata do destino do NOSSO país. O meu, o seu, o do seu filho, enfim, o de todos nós.

Essa tarefa ficou ainda mais inviável a partir do momento em que comecei a repaginar manchetes e notícias de jornais de 1964. Nestes textos, pinçados do Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Estado de São Paulo, ocorrem insistentemente alguns termos como: “impeachment”, “responsabilidade fiscal do presidente”, “corrupção”, “limpar o país do comunismo”, “golpe”, e tantos outros… João Goulart e Brizola são vistos como traidores da pátria e o termo “vendilhão” é usado para descrevê-los. Há ainda editoriais sobre o crescimento da intolerância e do ódio e a necessidade de mudança “para evitar o mal maior”.

Neste baralho de interesses que eram distribuídos entre os proponentes ao controle da nação, ocorreu, em 20 de março de 1964, a Passeata da família, convocada pela imprensa, oposição e, inclusive, pela FIESP, com 2.500 ônibus fretados e conduzidos a partir de cidades do interior de São Paulo.

A imprensa, e esses manifestantes, em alto e bom som, convocaram as Forças Armadas para “restabelecer a ordem e a paz nacional.” O que houve depois disso todos nós sabemos: mais de 20 anos de treva, silêncio e atraso, tudo isso num regime altamente repressor.

É assustador e angustiante perceber que o mesmo erro se repete pela forma como a realidade é conduzida. A diferença é que, para não repetir a história ipsi literis, os interessados em levar a virada de mesa a cabo, montaram esse estado de exceção sob uma estrutura democrática: congresso, judiciário e mídia. Assim, o plano pode ser executado sem o uso das Forças armadas. Como se tudo estivesse sendo feito dentro da mais perfeita legalidade.

Em 64, havia a ameaça comunista para eles, o que justificava o uso da borracha. Agora, a demanda é a bandeira do “basta à corrupção.” Desta forma arruma-se meia dúzia de bodes expiatórios e implementa-se um golpe mas, repito, com a prerrogativa do uso de instituições democráticas de um estado de direito. Houve uma evolução, portanto, no modus operandi.

Aos que criticam esse meu posicionamento reafirmo que ele não é carregado de ideologia alguma mas da constatação da soma de acontecimentos recentes, todos circunscritos a uma profunda incoerência, sob qualquer ângulo que se queira enxergar.

Roberto DaMatta já alertou, em algumas ocasiões, que qualquer troca de presidente não acarretará em uma mudança significativa no país, visto que seria preciso uma reforma estrutural, principalmente nos sistemas judiciário e político, que proporcionasse um “reset” em nossa sociedade. Um modelo, agora digo eu, baseado na modernidade mas sem esquecer traços culturais de nosso povo; e não só de uma elite aristocrática e patriarcal e seu pensamento irmamente distribuído para o andar de baixo através de seu mais glorioso porta voz: a mídia.

Não me causa estranhamento que as pessoas não consigam visualizar esse drama em andamento. Afinal, elas estão anestesiadas por uma injeção de justiça, aplicada pelos meios de comunicação conduzidos historicamente pelas famílias pertencentes à essa mesma elite conservadora brasileira. Ou seja, o líquido injetado é veneno e inebria os pacientes a uma realidade distópica pois abastecida por um justiciamento moral que os aplicadores, definitivamente, não possuem.

O resultado é intolerância, ódio e cegueira histórica e social. Como se tudo aquilo que se dissesse, para estabelecer um equilíbrio mínimo necessário ao debate, fosse verborréia. Num estalo de dedos historiadores, antropólogos e sociólogos se tornaram zumbis de vermelho enquanto uma grande massa disforme de semi-analfabetos funcionais, muitos carregando diplomas como se fossem morteiros, assumiram a posição de despostas esclarecidos, senhores da razão e da História e rechaçando qualquer debate que vise um contraponto. Não há mais equilíbrio possível.

Nos resta então torcer para que o pior não aconteça, embora eu não consiga encontrar argumentos minimamente coerentes para pensar de outro modo. Tenho exemplos de sobra que vão e vem em minha mente e que me conduzem à uma análise semelhante a do meu amigo virtual Vinicius Augusto Pontes.

Encerro então esse texto zumbi com uma previsão sinistra desse meu recôndito parceiro de além teclas. Trata-se de uma previsão escatológica e absurda? Talvez. Mas como já disse Nelson Rodrigues: “no Brasil, o absurdo perdeu a modéstia.” Vejo como uma descrição ácida, sarcástica e hiperbólica mas referenciada em aspectos já presentes em nossa realidade atual e passada…

“A Dilma cai, e o TSE já sinalizou que vai aliviar a barra do Temer. O PMDB entra no governo de transição, colocam um Nelson Jobim na Justiça, a lava-jato aplica uma prisão perpétua no Lula e a operação acaba em seguida com pessoas nas ruas comemorando. Se cria um ambiente de que a perseguição no Brasil está liberada, e começam meses de “caça aos petralhas”, um verdadeiro Pogrom nas ruas do país, com senhores de idade apanhando em bancas de jornal apenas por comprarem a Carta Capital, crianças com camisa vermelha sendo agredidas, casas de petistas sendo pichadas e apedrejadas. A corrupção volta a rolar solta sem causar clamor ou comoção popular. Não acontece nada com o Renan Calheiros e com o Eduardo Cunha. A TV para de noticiar os escândalos de corrupção, em 2018 o PSDB volta ao governo e como primeira atitude, toma de assalto o Ministério Público, a Polícia Federal, a PGR e etc, todas as denúncias e provas contra eles serão arquivadas, salva toda a imprensa da falência e com isso mantém com eles a relação promíscua de troca de favores. Torra as reservas internacionais nos primeiros 4 anos, as estatais que sobraram nos 4 anos subsequentes (incluindo as universidades), privatizam a Previdência e com isso inviabilizam o SUS que será todo entregue na mão de OS’s e Oscips. Ficam mais 30 anos no poder como estão em São Paulo. A população fica lobotomizada e passa a achar que está tudo bem, que o Brasil é o país do futuro mesmo com salários despencando, a desigualdade crescendo de forma assintótica, e tendo que ir viver ilegal nos EUA pagando coyotes para entrar pelo deserto mexicano, Criciúma e Governador Valadares mudam-se inteiras para Boston, o PT se entroniza como grande vilão da república, e o Lula morre na cadeia.” 

Talvez, repito, haja exageros, mas só a História nos mostrará o que, de fato, vai ocorrer.

Esse signatário tem motivos de sobra para não ser otimista com relação aos próximos passos do Gigante.

Que eu me engane!

Tomara: sempre há uma primeira vez…

De passagem: o artigo teria umas 5 mil palavras se eu fosse mostrar os exemplos daquilo que apresento aqui. Inviável. Fiquem à vontade para trazê-los…

Sobre André Vitor 16 Artigos
André Vitor faz Mestrado em Literatura e Vida Social na Unesp, é professor de Literatura, Redação e Bateria. Em suma, cruza e corre na área para cabecear.

Entre na conversa...