18 de July de 2019

Hora do Enem: você sabe separar os modismos e as tendências em Educação?

O ministro Aloizio Mercadante lançou o Hora do Enem, programa de TV e plataforma online. Foto: MEC.
O ministro Aloizio Mercadante lançou o Hora do Enem, programa de TV e plataforma online. Foto: MEC.

Em uma das minhas aulas na Unimar (Universidade de Marília) proponho a discussão sobre a diferença entre tendência e moda. Basicamente, fenômenos ou eventos que são qualificados como “tendência” tem um forte impacto social, político, econômico ou educacional. Portanto, são mais previsíveis e duráveis. Já a moda, ou “modinhas”, é imprevisível, de curta duração e não tem muito impacto social, político, econômico ou educacional. 

Vamos pegar um destes campos do saber e aprofundar o debate sobre moda e tendência. Vamos pegar o campo da educação. É inegável que a tecnologia aplicada à educação, mais especificamente ao ensino e aprendizagem, é uma tendência. Mas dentro da relação entre tecnologia e educação, é preciso analisar com cuidado os dispositivos tecnológicos e os modelos e terminologias “inovadoras”, e diferenciar o que é moda e o que é tendência. Por exemplo, nesta semana (05) o MEC (Ministério da Educação) lançou o programa “Hora do Enem”. Trata-se de um programa de TV e plataforma de estudos disponível aos estudantes do Ensino Médio que participarão do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O conteúdo pode ser acessado pelo site horadoenem.mec.gov.br.

Pois bem! Vocês acham que o “Hora do Enem”, uma plataforma cujo objetivo é ajudar o aluno do ensino médio a ir bem em uma prova, é moda ou tendência? Eu digo que é um modismo. Explico. Primeiro porque o uso da tecnologia como suporte ao estudo e à preparação para provas é coisa antiga. Segundo porque trata-se de programa governamental, arquitetado dentro de um esquema específico e que eventualmente vai ser modificado ou substituído. Como bem lembra a mestre em Educação pela Universidade Pontifícia de Salamanca (ES), Priscila Gonsales, em um artigo para A Rede, até mesmo o caráter personalizado e o “ensino híbrido” que estas plataformas trazem ao campo da educação continuam sendo modismo. Para Gonsales, “não é nova a ideia de pensar estratégias pedagógicas que valorizem os perfis individuais e o uso de outros ambientes além da sala de aula.”

Então qual seria uma tendência em educação? Se, como dito, a tendência tem um forte impacto social, político, econômico ou educacional e, portanto, esta ligada às grandes transformações pelas quais a sociedade passa ao longo dos últimos tempos, eu ouso dizer que uma tendência em educação é a democratização do ensino e o ensino da democracia. Explico.

O exemplo do programa “Hora do Enem”, dito uma moda, faz parte de uma tendência, da tecnologia na educação. Mas o programa deve se conectar à uma outra tendência: a democratização do ensino, o acesso de qualidade aos saberes cujo objetivo é a formação dos alunos, e não o mero “ir bem” na prova. Isto nos leva até a segunda tendência, o ensino da democracia. Toda democratização do ensino deve estar imbuída de valores democrático, a saber, da igualdade de oportunidades, da conquista da autonomia e do debate público de ideias, do respeito ao próximo e da transparência. Isto gera comportamentos que podemos denominar de “cidadania”. O filósofo americano John Dewey trata a democracia como um “estilo de vida”. É isto! A democracia é contra a desigualdade de oportunidades, a dependência intelectual, a corrupção de si e do próximo e o Estado de Excessão.

Com o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef em andamento, o Brasil passa por um cenário conturbado, político e econômico. Mas o impeachment também é apenas uma moda dentro daquilo que acredito ser uma outra tendência: diminuição da impunidade e da corrupção neste país. Entretanto, no papel de educador, dentro deste cenário conturbado, político e econômico, ressalto a luta no campo da educação pela intensificação da tendência da democratização do ensino e do ensino da democracia. Compartilhando com as preocupações de Gonsales, isto nos coloca em constante tensão (1) contra metodologias, materiais ou modelos de ensino e aprendizagem prontos e acabados. O meu papel de educador também me coloca em constante tensão (2) contra estudantes passivos diante de conteúdos transmitidos, seja pelo meio que for: livros, materiais audiovisuais ou revistas e jornais. Por fim, isto também me coloca em constante tensão (3) a favor da valorização e da formação dos profissionais da educação.

Editor e Prof. Beto Cavallari (centro) responde à perguntas com o Prof. Marcus Vinícius (USP) e Megan Laverty (Columbia/EUA). Foto: Divulgação.
Editor e Prof. Beto Cavallari (centro) responde à perguntas com o Prof. Marcus Vinícius (USP) e Megan Laverty (Columbia/EUA) em 2009. Foto: Facebook.

Para encerrar, compartilho com o leitor o Seminário comemorativo do centenário do livro Democracia e Educação: a Filosofia da Educação de John Dewey em debate. O evento, que ocorre na Universidade de São Paulo-USP, celebrará os 1oo anos do livro “Democracia e Educação”, do filósofo americano John Dewey. Fui convidado para palestrar e tenho orgulho de ser o responsável pela última tradução (parcial) do livro para o português do Brasil. Sua tradução foi publicada em 2007 e faz parte da série especial “Ensaios Comentados”, organizada pela Editora Ática. Veja mais em “Democracia e Educação – Capítulos Essenciais”. O livro ainda é considerado um dos mais importantes escritos para o processo educativo em sociedades democráticas mundo afora, particularmente no Brasil.

 

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