O trabalho de construir “pontes” entre democracia e educação

"Filosofar com o martelo" é uma expressão cunhada pelo filósofo Nietzsche. Foto: Internet.
"Filosofar com o martelo" é uma expressão cunhada pelo filósofo Nietzsche. Foto: Internet.

Eu entendo, como educador e filósofo, que o trabalho à minha frente é o de construir pontes entre democracia e educação.

Para tanto, como na contrução de uma ponte de concreto, aqui também são necessárias pessoas, ferramentas e matérias primas. Para a ponte de concreto é preciso contar com engenheiros, ferreiros e pedreiros (pessoas); desenhos, martelos e pregos (ferramentas); madeira, ferro e cimento (matérias primas). Engenheiros, ferreiros e pedreiros tem o poder de utilizar as ferramentas para lidar com as matérias primas e construir suas pontes. São especialistas nisso.

Quais seriam, então, as pessoas, ferramentas e matérias primas necessárias à construção de pontes entre democracia e educação?

As pessoas são os cidadãos, os jovens e adultos que tem o poder de viver em sociedade. As ferramentas que empoderam os cidadãos para lidar com o ambiente são aquelas especializadas em nossas faculdades mentais, principalmente o poder de discernir, de analisar, de sintetizar, de respeitar e fazer respeitar os diferentes julgamentos e de criticar. As matérias primas são os eventos históricos e políticos pelos quais somos sugados e atraídos. Como o ferreiro sem a ferramenta adequada que dificilmente será capaz de lidar com o ferro, os cidadãos sem as suas ferramentas dificilmente conseguirão lidar com os eventos históricos e políticos.

Isso se aplica aos atuais casos envolvendo o impeachment da presidente Dilma Roussef e o afastamento do deputado federal Eduardo Cunha; mas também à responsabilidade do prefeito Vinícius Camarinha na interrupção da obra de esgoto e à cegueira da Câmara de Vereadores diante de vereadores condenados pela Justiça. É nesse sentido de poder lidar com os eventos históricos e colocar à prova as figuras públicas que Nietzsche, por exemplo, cunhou a famosa expressão “filosofar com o martelo” — “martelar” é colocar os ídolos à prova e, ao descobrir que são ocos por dentro, desconstruir as suas imagens.

Daí a importância da educação, pois é por meio dela que nos empoderamos para lidar com o ambiente social e os eventos históricos e políticos. Nesse caso, ler, escrever, interpretar e se expressar são poderes básicos e necessários na luta contra as injustiças e impunidades. São as ferramentas básicas na construção de pontes entre democracia e educação. Já o discernimento, a análise, a síntese, o julgamento e a crítica são poderes que não apenas nos permitem lidar melhor com os eventos históricos e políticos, pois avançam na construção das pontes, mas podem despertar uma percepção ética e humana em cada um de nós que, em último caso, chamamos de liberdade de expressão.

É um sentimento similar, talvez, ao que toma o pedreiro quando testemunha que o seu poder o permite se ligar à sociedade, e vice-versa. Isto é, a capacidade de unir dois lugares diferentes por meio de pontes propiciando a liberdade de ir e vir é algo que o pedreiro e a sociedade podem compartilhar em comum.

Faltam pontes de todas as naturezas no Brasil. Mas o trabalho à nossa frente de construir pontes entre democracia e educação é o trabalho de formação de uma cultura. Não é fácil. A força de grupos autoritários econômicos e políticos é uma triste realidade no século XXI. Soma-se à isso a superficialidade das mídias e o fato de que ainda somos apenas 12% com ensino superior, cerca de 14 milhões de analfabetos acima dos 15 anos e a educação formal esta empobrecida em todos os níveis de ensino, público e privado.

Mas por mais incrível que parece, o poder ainda esta em cada um de nós. Mãos à obra, cidadãos.

Sobre Beto Cavallari 181 Artigos

Sou editor do jornal online MG e escrevo sobre política, cultura, tecnologia e educação.

Entre na conversa...