17 de June de 2019

Trilogia do Terror III Parte Final – Propostas de reflexão por um mundo (um pouco) menos violento.

PM de SP usa truculência contra estudantes que ocupam escolas contra a reorganização do ensino do Governo Alckmin. Foto: Estadão.
PM de SP usa truculência contra estudantes que ocupam escolas contra a reorganização do ensino do Governo Alckmin. Foto: Estadão.

Estava vendo ontem uma palestra do historiador Leandro Karnal que falava sobre o ódio no Brasil e mais, contextualizando, sobre o ódio no mundo inteiro. O professor de ética da USP Clóvis de Barros também já falou sobre o assunto e uma definição despretensiosamente possível para o ódio seria que ele é uma incapacidade moral de exercitar a tolerância. Ou seja, a incapacidade de transformar esse sentimento primitivo em razão. Karnal também falava da violência inerente ao homem e que o acompanhou por toda a história da civilização. Portanto, não seria possível paz, ampla e irrestrita, onde existem comunidades compostas de animais humanos.

Partamos desse princípio e aceitemos que a nossa tão sonhada paz não está tão próxima de ocorrer. E talvez nem fosse aconselhável pois, sem problemas, cairíamos no tédio e depressão e quereríamos nossas mazelas de volta. Sim, numa sociedade que prega a perfeição paramos de olhar para nós mesmos: somos imperfeitos. À propósito, é uma sensação de mal estar acentuada na Era Pós-moderna. O consumo que nos traz realização fugaz está em declínio, o Ter em detrimento do Ser começa a ser revisto. Num planeta exaurido pelo Sistema é preciso racionalizar, e racionalizar impõe reflexão e reflexão impõe sofrimento, mas deixemos para falar melhor disso em outro momento. O sofrimento da vez é a insegurança!

Assim, nos resta resolver os problemas que podem (isso sim!) minimizar a violência nas sociedades, como já foi dito nos textos anteriores. O que nossa sociedade (e isso inclui nós, individualmente) pode então fazer para amenizar a insegurança nas cidades? (Não esqueçamos: nossos problemas estão no Rio, São Paulo, Marília e outras mas por que não pensar em Bagdá, Caracas e Porto Príncipe, se somos globalizados para apreciar outras culturas em blogs de viagem?)

A primeira coisa que nos toca (ou deveria) é a pobreza e, sobretudo, a desigualdade social. E com isso o preconceito racial. Vimos no texto anterior que o regime escravocrata no Brasil deixou sequelas: uma enorme população negra entregue à própria sorte há mais de um século. Uma prova disso é que, enquanto escrevo esse texto fico sabendo da execução sumária de 5 jovens ESTUDANTES pobres/negros alvejados com 111 tiros por policiais. Abstraia pois você se acostumou com a violência: são 111 TIROS! Se isso não pode ser jogado na conta de uma polícia mal preparada, fruto de um regime militar e na herança histórica que joga o negro na vala comum da sociedade não sei o que pode ser! Quer ver? Feche os olhos agora e pense num pobre do morro: como será seu arquétipo? Não preciso responder…

Em seguida temos o problema da impunidade. Como queremos reduzir a maioridade penal e o escambau se não conseguimos sequer prender os líderes do tráfico? Será que é porque é plenamente viável corromper um sistema jurídico com os 500 bilhões de dólares (isso é o contabilizado) que as drogas movimentam? Nem vou falar muito do envolvimento dos bancos no processo de “lavagem” desse dinheiro para não transformar esse artigo em livro. E ainda tem o comércio de armas que atua tanto no morro como em uma invasão sistemática da França, só pra citar um exemplo, na Síria. Vemos aqui, claramente, relações capitalistas com “oferta” (ou suborno), direito de propriedade (ou sigilo bancário) e mercado consumidor.

Lembrando que esse capitalismo também gera expectativa nesses meninos pobres os quais aspiram o mesmo padrão de consumo que seus colegas da Vieira Souto ou da Quai d’Orsay. E como chegarão a esses produtos almejados? Estudando? Em que escolas? Com que professores? Tem formação moral familiar? Resultado: buscam o caminho mais fácil. Todo mundo sabe disso! A questão é que é mais fácil bradar que “bandido bom é bandido morto” do que arregaçar as mangas e fazer algo de concreto para mudar essa realidade.

Com relação à impunidade, talvez com uma renovação do sistema jurídico, reduzindo a influência dessa elite jurídica (aquela mesma aristocrática e tradicional que controla a política) possamos ter novos ares e maior eficiência sem abrir mão, claro, de uma reforma no judiciário. É preciso simplificar o sistema, e fazer a lei valer para todos.

Difícil não é? Fácil mesmo é ver o programa do Datena e silenciar quando a polícia de São Paulo bate em estudantes. Sim, os mesmos estudantes menos favorecidos lá do início. Mas não se esqueçam: um dia eles vão crescer: o que se tornarão?

O que posso fazer?

“Mas isso é muito abstrato, o que posso fazer?”, pode perguntar o leitor mais atento.

Caro leitor, você pode começar exigindo das escolas ensino de filosofia e sociologia para ajudar as futuras gerações a visualizar essa conjuntura, algo que as atuais têm tanta dificuldade de enxergar. Isso você pode fazer no seu bairro! Principalmente se for em escola particular. Se estiver complicado obter êxito, use o chavão que os professores têm ouvido dos alunos em sala de aula: “faça pois estou pagando!”

De passagem: entender a realidade além do que a  mídia mostra já é uma grande mudança, uma mudança em si mesmo.

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