22 de March de 2019

Planejamento e política para informatização com foco na aprendizagem

O Brasil tem histórico em políticas para informatização e conexão de escolas. O ProInfo, o Programa Banda Larga nas Escolas (PBLE), o programa Um Computador por Aluno, tablets para professores são algumas das iniciativas que ajudaram a  disseminar as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) nas redes de ensino. E são também, entre outras iniciativas públicas, os objetos de análise da pesquisa “Aprendizagem Móvel no Brasil”, lançada em agosto pela Universidade de Columbia (Estados Unidos).

O estudo, realizado pelo Centro de Estudos Brasileiros da universidade estadunidense, teve apoio do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e financiamento da empresa Qualcomm. O levantamento qualitativo cobriu as cinco regiões do Brasil, nas cidades de Brasília, Curitiba, Goiânia, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Pesquisadora associada da Columbia, e responsável pela pesquisa, a brasileira Fernanda Rosa lembra que a tecnologia pode transformar a educação, mas precisa ser parte de uma política estruturada, que vá além da distribuição de hardwares.

Fernanda Rosa, pesquisadora na Columbia University, em Nova York.
Fernanda Rosa, pesquisadora na Columbia University, em Nova York.

Como está a aprendizagem móvel nas escolas brasileiras?
Fernanda Rosa – A pesquisa mostrou que os governos locais estão adquirindo tecnologia móvel em massa. Isso acontece por conta dos incentivos dados pelo governo federal, que abre editais e faz registros de preços. Porém, em muitos casos, esse processo está sendo feito a despeito dos outros pilares necessários para que exista uma política de aprendizagem móvel.

Quais seriam esses outros pilares?
Fernanda – Para o aprendizado móvel, as escolas precisam ter acesso a outras camadas da infraestrutura, como rede elétrica e conexão. Mas, além disso, há questões como formação de professores e produção e uso de conteúdos digitais. Só que, apesar de um quadro negativo, precisamos olhar para frente, porque não dá para parar. Precisamos fazer isso acontecer com planejamento e gestão de política pública. Acredito que o ponto central é a dimensão política, que envolve planejamento. Antes de comprar o hardware, precisamos saber o foco da política. E o foco ainda precisa ser a aprendizagem. Por isso adotamos o termo aprendizagem móvel no Brasil. Até hoje trabalhamos no plano da informatização. Tivemos o ProInfo, na década de 1990, que distribui equipamentos, para depois começarmos a nos preocupar com o uso da tecnologia. Foi a informatização da escola. Agora estamos na onda de informatização dos professores e alunos.

E qual o grau de informatização dos professores?
Fernanda – Podemos considerar que a política de levar equipamentos às escolas foi eficiente. A pesquisa TIC Educação, da Cetic.br, aponta que 84% das escolas urbanas têm laboratório de informática. Mas, no que diz respeito a uso pedagógico,  não estamos nem perto de alcançar o resultado esperado. A pesquisa revelou que, no Brasil, apenas 2% do tempo do professor é usado com Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Isso significa que, de cada 200 dias letivos, apenas em quatro o professor faz uso dessas tecnologias.

Como ampliar a informatização de professores e alunos?
Fernanda – Ainda não demos uma resposta adequada ao problema de uso da tecnologia para o aprendizado. E estamos informatizando professores e alunos com base nas tecnologias móveis, para permitir o aprendizado em qualquer hora e em qualquer lugar. Para isso, precisamos de formação de professor, infraestrutura adequada… O uso guiado dessas tecnologias também é necessário.

O que é o uso guiado das tecnologias?
Fernanda – Não adianta adquirir recursos e deixar na mão dos professores, para que decidam como serão usados. O levantamento mostrou que políticas guiadas têm mais efeito para o aprendizado. Quando o uso não é guiado, o foco fica na infraestrutura e não no aprendizado. Não diz como o recurso vai ser usado e o tempo que será usado. Aí o resultado é muito heterogêneo.

Como se estabelecem esses objetivos e usos?
Fernanda – É tarefa das secretarias de Educação definir os objetivos e, até certo ponto, os recursos a serem utilizados. E, claro, dar a liberdade que achar mais conveniente para as escolas. Uma política com definição de horário e tempo em que se vai fazer uso das tecnologias pode ser interessante. Do contrário, podem não ser usadas. Há diferentes perfis de professores, aqueles que têm medo dessa tecnologia, que acham que a tecnologia é ruim…

Os governos deveriam também prover o conteúdo educacional?
Fernanda – A gente precisa ser muito cuidadoso com essa coisa de dar uma solução. Claro que, quando estamos na academia, temos posição privilegiada de dizer o que tem de ser feito e dizer que o gestor precisa executar. No Brasil, há duas tendências: de compra de software de empresas; e outra de produção local de conhecimento e conteúdo digital. Cada uma dessas vertentes se baseia em um pressuposto. Quem produz localmente despende bastante recursos e a intenção é de que o professor seja o produtor de conhecimento. Outras secretarias, com menos menor capacidade de mobilização, optam, em geral, por adquirir conteúdo para os tablets da rede.
O problema, nos dois casos, é que não há um plano anterior que delineie para onde ir. Temos boas práticas, mas mesmo secretarias que estão produzindo conteúdo não têm claro o currículo. Nosso objetivo é a aprendizagem dentro do currículo que a rede definiu. A tecnologia também pode atuar negativamente, se tirar o foco do conteúdo necessário. Não podemos perder de vista o currículo e não podemos focar no que não é o central.

Uma solução seria um portal institucional com conteúdo educacional?
Fernanda –  Precisamos que os conteúdos sejam planejados de acordo com o que queremos que o aluno aprenda. Uma plataforma para todos eu vejo como um projeto muito desafiador, por conta da autonomia de estados e municípios. Cada um está encaminhando sua política. Uma questão que apareceu na nossa pesquisa é que, ao contratar um recurso de um terceiro, a secretaria não precisa exercer uma gestão e corre o risco de delegar para a empresa a definição do que os alunos estarão aprendendo.

Como fazer um planejamento do aprendizado móvel?
Fernanda – O que a pesquisa mostrou, no contexto da tecnologia na educação, é que um ator seria chave para a mobilização pela capacidade institucional, que é o Ministério da Educação (MEC). Ainda que os estados e os municípios tenham autonomia, o MEC tem alta influência em políticas locais de educação. Essas definições poderiam ser direcionadas com participação ativa do ministério. Hoje faltam redes entre secretarias municipais e estaduais que abordem essa questão. Apontamos também a necessidade de mais fóruns que reúnam as pessoas envolvidas na gestão do ensino. Os problemas são recorrentes e similares em muitos aspectos. Então, seria interessante ter uma rede de gestores de Tecnologia da Informação, gestores pedagógicos com esse foco.

Você poderia resumir a conclusão do estudo?
Fernanda – O nossos olhar foi para a política como um todo. Pensamos em olhar os casos e ver as iniciativas que estão se desenvolvendo. Em todas as secretarias temos cases de sucesso em infraestrutura, conteúdo digital e formação de professor. Mas o foco do nosso estudo é mostrar que, para que isso se torne homogêneo, é necessário planejamento e uma política com foco na aprendizagem.

Que risco a sociedade corre ao relevar essas questões?
Fernanda  – É papel da escola formar uma geração para daqui a 12 anos. Deixar nas mãos dos estudantes a formação em tecnologia pode significar aumentar a desigualdade. Não estamos falando de algo pequeno. Se o aprendizado móvel não servir para transformação no processo de ensino, colocar o cidadão como sujeito do processo, entender a tecnologia como linguagem e não apêndice, podemos, como sistema de educação, contribuir para a maior desigualdade no futuro. As compras e aquisições estão acontecendo e com bom planejamento podemos alcançar os objetivos de aprendizado.

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